A semana começou com um clima de resistência nos bastidores do Senado em relação ao nome de Jorge Messias. Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado-geral da União tenta superar a rejeição de parte dos parlamentares enquanto intensifica articulações para garantir votos.
A sabatina de Messias na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) está marcada para 10 de dezembro. O colegiado reúne 27 senadores, e ele precisa de ao menos 14 votos para avançar ao plenário, onde o apoio mínimo sobe para 41. Para tentar reverter o cenário desfavorável, Messias tem percorrido gabinetes em busca de respaldo político.
Apesar do esforço, a votação secreta dificulta a leitura do clima real entre os senadores. Muitos evitam declarações claras, mas insinuam que a tendência atual não favorece o governo.
“O quadro não é simples, mas tudo dependerá das conversas até lá”, afirma o senador Izalci Lucas (União-DF), líder da oposição no Congresso. Para ele, a definição ainda é incerta, e critica o critério de escolha do governo para indicações ao STF.Quando questionado sobre a possibilidade de aprovação, Izalci resume: “O voto é secreto”.
A mesma percepção é compartilhada pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da Frente Parlamentar Evangélica. “Por se tratar de uma votação sigilosa, é muito difícil antecipar qualquer resultado”, avalia.
Segundo Viana, a situação de Messias se complica ainda mais devido às disputas envolvendo emendas parlamentares. Desde o fim de 2024, o STF passou a exigir maior transparência na destinação de recursos — entendimento relatado pelo ministro Flávio Dino e acompanhado pela Advocacia-Geral da União (AGU), o que ampliaria o atrito entre Legislativo e Judiciário.
“Entre muitos senadores, há a percepção de que Messias representa uma posição que pode ampliar tensões sobre esse tema”, diz Viana.
Evangélico como Messias, o senador foi procurado pelo advogado-geral da União para tentar uma reunião com a bancada. No entanto, a maioria dos 17 integrantes da frente não demonstrou interesse.
“Tenho conversado individualmente com todos. Até agora, a maior parte não quer participar. Duvido que uma reunião mude a decisão de voto de alguém”, afirma.
O encontro entre os dois ainda não aconteceu presencialmente — até agora, apenas conversas por telefone.
Quem é Jorge Messias
Jorge Messias é advogado e servidor de carreira da Advocacia-Geral da União. Formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ele também possui mestrado e doutorado pela Universidade de Brasília (UnB), consolidando uma trajetória acadêmica sólida.
Ingressou na AGU em 2007 como procurador da Fazenda Nacional e, desde então, acumulou funções de destaque na administração pública federal. Entre suas principais experiências, atuou como subchefe para Assuntos Jurídicos da Presidência da República, secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior no Ministério da Educação e consultor jurídico em diferentes pastas do governo. Sua carreira é marcada por forte atuação técnica e pela participação em áreas estratégicas do Executivo.
Perfil e repercussão político-jurídica
A indicação de Jorge Messias ao STF é interpretada internamente como um movimento estratégico do governo. Ele é reconhecido por seu perfil técnico e pela longa trajetória dentro da Advocacia-Geral da União, o que reforça a imagem de um nome alinhado às estruturas jurídicas do Executivo.
Ao mesmo tempo, Messias desperta atenção por sua aproximação com setores religiosos. Declarado evangélico, ele é visto como uma possível ponte entre o governo e grupos conservadores, o que adiciona um componente político importante à sua escolha.
Apesar disso, a indicação não passa sem críticas. Para parte da oposição e de analistas jurídicos, seu vínculo estreito com o governo levanta questionamentos sobre sua independência e sobre a capacidade de manter a imparcialidade exigida de um ministro do Supremo. As discussões também incluem dúvidas quanto ao conceito de “reputação ilibada”, requisito constitucional para o cargo.
Entre seus defensores, porém, prevalece a avaliação de que Messias reúne sólida formação acadêmica e experiência acumulada em cargos estratégicos da administração pública, fatores que, segundo eles, o qualificam para assumir uma cadeira na mais alta corte do país.



