Pioneira na área de neurologia, Maria Helena Estrela, 80 anos, continua circulando diariamente pelos corredores do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, onde iniciou sua trajetória em 1968 como a primeira mulher a ingressar na residência de neurologia da instituição. Reconhecida pelo bom humor e pela dedicação ininterrupta à medicina, ela permanece em atividade, atuando na auditoria de óbitos e revisando prontuários.
Apesar de hoje cumprir funções mais administrativas, Maria Helena garante que a aposentadoria não está nos seus planos. “Não consigo ficar dentro de casa olhando para as paredes. O hospital faz parte da minha vida há quase seis décadas. Só saio daqui quando Deus achar que é hora”, brinca.
‘Acabei fazendo o parto da minha mãe’
Com tantos anos de atuação, Dona Estrela — como é carinhosamente chamada — coleciona episódios curiosos que renderiam facilmente um livro. Um dos mais marcantes aconteceu durante sua residência, quando visitou a mãe, então grávida, e a encontrou em trabalho de parto.
Decidida a evitar que o nascimento ocorresse ali mesmo, correu com ela para o hospital. Mas o destino já estava traçado: mesmo com a presença da obstetra, a médica precisou assumir o parto da própria mãe, trazendo ao mundo sua irmã caçula, 25 anos mais nova.
“Ela começou a ter contrações durante a madrugada. A obstetra precisou atender uma emergência e, no fim, fui eu quem realizou o parto. Sem luvas, na cama. Até hoje isso rende piada na família”, conta entre risadas.
Entre preconceitos e resistência feminina
Nem todas as lembranças, porém, são leves. Goiana, jovem e mulher, Maria Helena enfrentou xenofobia e machismo ao chegar ao hospital na década de 1960 — período marcado também pela ditadura militar.
“Me perguntavam se em Goiânia tinha onça andando nas ruas. Eu respondia que sim, e que o prato favorito delas era paulista”, lembra, rindo. Em outra ocasião, precisou lidar com uma paciente que não aceitava ser atendida por uma médica. “Ela exigiu um homem. Dei alta e disse: ‘Agora tente uma ficha com um neurologista homem’. Saiu me xingando pelo corredor todo.”
O humor, segundo ela, sempre foi ferramenta de resistência.
‘Já vi todas as formas de morrer’
Há cerca de 30 anos na auditoria de óbitos, Maria Helena afirma ter aprendido lições profundas sobre a finitude. “Digo que já descobri todas as maneiras de morrer. Mas a gente precisa aceitar que, por mais cuidado que exista, chega um momento em que a vida termina. É algo que está escrito.”
Sua mudança de área aconteceu por necessidade: o marido, também médico, adoeceu e exigia cuidados intensos. “Os mais jovens querem os casos bonitos, as cirurgias que dão certo. Lidar com a morte assusta. Eu já passei por isso muitas vezes — com meus pais, um irmão e meu marido.”
Independência com apoio da tecnologia
Aos 80 anos, a neurologista mora sozinha em São Paulo e utiliza um sistema de teleassistência para garantir segurança no dia a dia. O serviço oferece monitoramento 24 horas, com botão de emergência e sensores que acionam automaticamente a central em caso de queda.
Com familiares vivendo entre Brasília, Goiânia e São Paulo, a tecnologia é aliada essencial. Sempre bem-humorada, ela garante que vive com responsabilidade e consciência dos próprios limites. “Não vou sair por aí de patinete só porque virou moda. Tenho prótese nos dois quadris, sou míope. A gente precisa aceitar a idade. Mas sigo levando uma vida normal.”



