Produtos como café solúvel, uvas frescas, mel e pescados seguem sujeitos à tarifa de 50% nos Estados Unidos, mesmo após os anúncios recentes do governo americano que retiraram as cobranças extras de 10% e 40% para centenas de mercadorias. As decisões — publicadas em 14 e 20 de novembro — aliviaram parte significativa do setor brasileiro, beneficiando itens de exportação de grande relevância, como café em grão e carne bovina. No entanto, outros segmentos continuam enfrentando custos elevados para acessar o mercado norte-americano.
O que ficou de fora das isenções?
Apesar de representarem fatias menores do total exportado pelo agro brasileiro, setores como o de café solúvel, uvas, mel e pescados têm nos Estados Unidos um destino estratégico e agora convivem com incertezas. Entenda a situação de cada um:
Café solúvel continua sob tarifa de 50%
A indústria de café solúvel foi surpreendida por permanecer fora das duas listas de isenções, segundo Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).
Em 2024, as exportações do produto para os EUA representaram 10% das vendas do setor. O país historicamente é um dos principais destinos, tendo respondido por 38% do total importado pelos americanos no ano passado.
Mas o impacto da tarifa adicional de 40%, vigente desde julho, foi imediato: entre agosto e outubro, o volume exportado caiu cerca de 50% em comparação com o mesmo período de 2024.
Segundo Lima, o mercado norte-americano ainda está consumindo estoques antigos, mas, caso a tarifa se prolongue, varejistas podem migrar para fornecedores como México, Colômbia, Vietnã e países europeus.
A Abics e o Cecafé seguem em negociações com o governo brasileiro, autoridades dos EUA e empresas do setor. Reuniões com o Itamaraty e com os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento foram agendadas para os dias 27 e 28 de novembro.
Uva brasileira sofre queda de 73% nas vendas para os EUA
As uvas frescas também ficaram fora da lista de exceções. Em 2024, os EUA compraram 23% das uvas exportadas pelo Brasil, gerando faturamento de US$ 41,5 milhões, segundo a Abrafrutas.
Entre outubro e novembro, a comercialização despencou 73%, reflexo direto das tarifas.
De acordo com Eduardo Brandão, diretor-executivo da associação, a exclusão pode estar relacionada ao fato de os EUA terem forte produção interna e expectativa de supersafra em 2025, além de importarem grandes volumes do Chile e Peru.
Embora os frutos tenham sido redirecionados para mercados da Europa e América do Sul, a queda na demanda reduziu o poder de negociação dos preços.
Mel brasileiro segue enfrentando dupla taxação
O mel nacional já era taxado em 8,04% antes do tarifaço, e agora acumula a sobretaxa de 50%.
Renato Azevedo, presidente da Abemel, afirma que o setor vive incertezas, principalmente sobre a renovação de contratos. Embora os acordos atuais estejam garantidos até dezembro de 2025, não há confirmação de continuidade.
Os Estados Unidos são responsáveis por quase 80% de todo o mel natural exportado pelo Brasil, segundo o AgroStat, o que torna o impacto ainda mais preocupante.
Setor de pescados critica falta de avanços
A exclusão dos pescados das duas decisões frustrou o segmento, afirma Eduardo Lobo, presidente da Abipesca.
Segundo ele, o setor movimenta cerca de US$ 300 milhões em vendas anuais para os EUA, que representam quase metade das exportações brasileiras do produto.
Lobo destaca que a atividade é essencial para comunidades costeiras e ribeirinhas, e que pequenas e médias empresas são as mais afetadas pela manutenção da tarifa.
Para o dirigente, o tema precisa voltar ao centro das negociações bilaterais:
“Cada rodada em que o pescado fica fora da pauta representa perda de espaço para concorrentes internacionais. O Brasil está ficando para trás.”



