O setor de energias renováveis no Ceará vive um paradoxo: embora a produção de fontes limpas cresça a passos largos, a infraestrutura de transmissão não acompanha o ritmo. Segundo o novo Plano da Operação Elétrica de Médio Prazo (PAR/PEL), divulgado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), as restrições no escoamento de energia (o chamado curtailment) devem persistir pelo menos até o final de 2029.
A medida de “cortar” a geração é necessária para evitar uma sobrecarga que poderia levar a um colapso sistêmico. No entanto, o custo dessa cautela é alto: em quatro anos, o Ceará deixou de gerar 3,3 milhões de MWh, volume que seria suficiente para suprir a demanda de cerca de 16 milhões de residências.
O gargalo na transmissão e o prejuízo financeiro
O problema central reside no desequilíbrio entre a alta oferta de energia solar e eólica e a capacidade limitada das linhas de transmissão. Quando a produção excede o que o sistema pode suportar, as usinas são obrigadas a paralisar suas operações.
Esse cenário gera impactos em cascata:
- Perda de receita: Apenas em novembro de 2025, o prejuízo estimado para o setor foi de R$ 69 milhões.
- Insegurança jurídica: O aumento de ações judiciais solicitando ressarcimento por energia não comercializada afasta novos investidores.
- Desgaste regional: O Nordeste, e especificamente o Ceará (3º estado mais afetado), sofre com um gargalo logístico que trava o desenvolvimento econômico.
“A defasagem na infraestrutura é um obstáculo antigo. Sem previsibilidade de escoamento, o apetite por novos investimentos no Ceará fica limitado”, alerta Adão Linhares, do Sindienergia-CE.
Investimentos previstos e obras estruturantes
Para tentar reverter o quadro, o ONS projeta investimentos da ordem de R$ 28,1 bilhões até 2030. No Ceará, o plano inclui:
- Instalação de mais de 1.400 km de novas linhas de transmissão.
- Implementação de compensadores síncronos (equipamentos que regulam a tensão e estabilizam a rede) em cidades como Quixadá e Morada Nova.
- Ampliação da interconexão entre regiões para facilitar o fluxo de carga.
Apesar das melhorias previstas para começarem a operar entre 2027 e 2029, o ONS adverte que interrupções pontuais ainda podem ser necessárias para garantir a segurança da rede elétrica nacional.
Impacto direto no bolso do consumidor
O desperdício de energia renovável não afeta apenas as empresas. Segundo Kleber Lima, professor da UFC, o curtailment obriga o sistema a acionar usinas termelétricas (mais caras e poluentes) para compensar a instabilidade ou atender picos de demanda.
“Quando deixamos de usar o vento e o sol por falta de rede, recorremos a combustíveis fósseis. Isso encarece a operação do sistema e acaba refletido diretamente nas bandeiras tarifárias e no valor final da conta de luz do consumidor”, explica o especialista.
Soluções no horizonte
Entidades como a Absolar e a ABEEólica defendem que, além de novas linhas, o país precisa acelerar a adoção de baterias de armazenamento e integrar grandes centros de consumo — como as futuras plantas de Hidrogênio Verde e Data Centers — diretamente às áreas de geração.



