Diferenças hormonais e estruturais no sistema cardiovascular ajudam a explicar por que os sinais de infarto costumam ser mais discretos nas mulheres, dificultando o diagnóstico precoce. O sintoma mais conhecido de um ataque cardíaco é a dor intensa no peito que irradia para o braço esquerdo. Porém, no caso das mulheres, esse padrão nem sempre aparece — e, quando aparece, tende a ser menos evidente. Isso faz com que muitos quadros sejam confundidos com problemas digestivos, ansiedade ou simplesmente cansaço.
Sintomas de infarto mais comuns em mulheres
Entre os sinais que costumam surgir no público feminino estão:
- Enjoo
- Falta de ar
- Cansaço sem explicação
- Desconforto no peito
- Arritmia
Um estudo publicado em 2018 na revista Circulation, da American Heart Association, revelou que 62% das mulheres apresentaram três ou mais sintomas associados ao infarto, mesmo sem dor no peito — porcentagem mais alta que a observada entre os homens.
Segundo o cardiologista Roberto Kalil, presidente do Conselho Diretor do InCor (HCFMUSP), essas diferenças estão ligadas tanto a fatores hormonais quanto às características anatômicas do coração feminino. Ele também destaca o impacto de fatores psicossociais, como estresse, sobrecarga de trabalho e acúmulo de responsabilidades.
Homens x mulheres: como os sintomas se manifestam
Nos homens, os sinais clássicos tendem a ser mais evidentes e surgem de forma abrupta, o que normalmente leva a uma busca rápida por atendimento médico.
Sintomas mais típicos em homens:
- Dor forte e localizada no peito
- Irradiação para braço esquerdo, costas, mandíbula ou ombro
- Falta de ar, suor frio, náuseas ou vômitos
Já nas mulheres, o quadro costuma ser mais discreto, o que torna a identificação mais difícil.
A cardiologista Cristina Milagre, do HCor, alerta que sintomas como cansaço e náuseas são frequentemente subestimados, embora possam indicar risco cardíaco.
Sintomas mais comuns em mulheres:
- Dor abdominal que pode parecer má digestão
- Cansaço extremo
- Falta de ar mesmo em repouso
- Enjoos e vômitos
- Palpitações
- Tontura ou desmaio
- Dor nas costas, pescoço ou mandíbula
Segundo Kalil, muitas mulheres não apresentam dor no peito durante o infarto, o que atrasa o diagnóstico e pode levar a complicações mais graves.
Por que os sinais são diferentes?
Especialistas apontam três fatores principais:
1. Tamanho do coração e calibre dos vasos
O coração feminino é menor e possui artérias coronárias mais finas. Isso facilita obstruções parciais, que nem sempre geram dor intensa, mas podem provocar sintomas inespecíficos.
2. Influência dos hormônios
Os estrogênios exercem efeito protetor no sistema cardiovascular até a menopausa. Após essa fase, o risco de infarto aumenta significativamente.
3. Maior propensão à microangiopatia
Mulheres têm maior tendência a desenvolver microangiopatia coronariana — obstruções nos pequenos vasos do coração, que causam sintomas atípicos e difíceis de identificar em exames tradicionais.
Riscos do diagnóstico tardio
Por apresentarem sinais menos óbvios, muitas mulheres demoram mais para procurar ajuda. Segundo especialistas, essa hesitação pode ser fatal.
“As pacientes costumam associar os sintomas a estresse ou cansaço. Mas, quando falamos de infarto, o tempo é determinante”, afirma Kalil.
De acordo com Milagre, essa demora contribui para que doenças cardíacas matem mais mulheres do que o câncer de mama no Brasil.
Ela reforça que situações como doenças autoimunes, hipertensão gestacional, diabetes gestacional e tratamentos para câncer de mama aumentam o risco cardíaco feminino e exigem acompanhamento mais frequente.
Como prevenir um infarto
A prevenção segue princípios comuns aos dois sexos, mas as mulheres devem ter atenção redobrada após a menopausa ou em caso de histórico de condições específicas.
Entre as recomendações:
- Atividade física regular
- Alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas e vegetais
- Controle do estresse, com práticas como meditação ou ioga
- Exames periódicos, como aferição de pressão, colesterol e glicemia
Cristina Milagre destaca que qualquer desconforto persistente deve ser levado a sério. “O corpo costuma avisar quando algo está errado. Ignorar sinais pode custar a vida”, afirma.
Kalil reforça: “O atendimento deve ser imediato. Suspeitou de um problema cardíaco, procure emergência. Quanto mais rápido o tratamento, maiores as chances de recuperação”.



