Novo método avalia risco de AVC além do entupimento

Pesquisa analisa placas carotídeas com inteligência artificial

🕓 Última atualização em: 09/01/2026 às 21:15

Uma pesquisa clínica conduzida no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, aponta um avanço relevante na prevenção do acidente vascular cerebral (AVC) ao utilizar inteligência artificial (IA) para identificar quais placas de gordura nas artérias carótidas apresentam maior risco de provocar o evento neurológico.

O AVC está entre as principais causas de morte e incapacidade no Brasil. Em cerca de 20% dos casos, ocorre quando um coágulo se desprende de uma placa de aterosclerose localizada nas carótidas — artérias responsáveis por levar sangue ao cérebro.

Avaliação vai além do grau de entupimento

Tradicionalmente, o risco de AVC era estimado quase exclusivamente pelo percentual de obstrução da artéria. O novo estudo propõe uma mudança de paradigma: o foco passa a ser a composição da placa, e não apenas o seu tamanho.

Combinando angiotomografia computadorizada (angio-TC) e algoritmos de IA, os pesquisadores analisam se a placa é:

  • mais lipídica, rica em gordura e considerada instável;
  • predominantemente fibrosa ou calcificada, geralmente mais rígida e estável.

Segundo os especialistas, placas menores, mas com alto teor de gordura e superfície irregular, podem representar risco maior de AVC do que obstruções mais extensas e estáveis.

Pesquisa analisa cerca de 100 pacientes

O projeto teve início em janeiro de 2025 e acompanha aproximadamente 100 pacientes submetidos à angiotomografia por suspeita de AVC. As imagens são reprocessadas com um software avançado, o CT Plaque Analysis, capaz de diferenciar gordura, tecido fibroso e cálcio a partir dos padrões captados na tomografia.

A partir desses dados, os pesquisadores criam um índice de vulnerabilidade da placa, que avalia a relação entre o volume lipídico e o tecido fibroso. Os resultados finais estão previstos para o primeiro semestre de 2026.

IA já orienta decisões durante procedimentos

Um dos pontos inéditos do estudo foi o uso, pela primeira vez, das imagens geradas pela IA para auxiliar na escolha do tipo de stent implantado durante um procedimento vascular.

Em um estudo piloto, a tecnologia foi aplicada no tratamento de um paciente de 72 anos que havia sofrido um AVC recente. A decisão terapêutica foi guiada pela análise automatizada da placa e confirmada em tempo real por ultrassom intravascular (IVUS) — exame que permite visualizar a parede da artéria por dentro.

“Nem sempre a artéria mais estreita é a mais perigosa. Uma placa aparentemente pequena, mas instável, pode se romper e causar um AVC”, explica o cirurgião vascular Alexandre Araújo Pereira, idealizador da pesquisa.

Imagens tridimensionais revelam áreas críticas

O software utilizado no estudo aplica algoritmos de IA que analisam milhares de características invisíveis a olho nu. O sistema gera imagens tridimensionais coloridas, destacando áreas de maior vulnerabilidade da placa.

A análise é realizada por uma equipe multidisciplinar, envolvendo radiologia, cirurgia vascular e neurologia. A proposta inicial é descrever com precisão o perfil das placas, para que, no futuro, o método possa ser incorporado à rotina clínica.

Novo paradigma na medicina vascular

As análises preliminares indicam que placas com núcleo lipídico volumoso e superfície irregular estão fortemente associadas à instabilidade e ao risco de embolização cerebral.

“O avanço não está apenas em prever o risco, mas em usar a imagem gerada pela IA para guiar a estratégia terapêutica de forma personalizada”, afirma Pereira. A expectativa é reduzir complicações, embolizações durante procedimentos e indicar o tratamento mais seguro para cada paciente.

Para a neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, a pesquisa exemplifica o impacto da inovação na prática médica. “Ao compreender melhor o comportamento das placas carotídeas com apoio da inteligência artificial, conseguimos agir antes que o AVC aconteça”, destaca.

Tecnologia pode antecipar prevenção do AVC

Além de orientar intervenções, o estudo abre caminho para identificar pacientes de alto risco antes do primeiro AVC, o que pode transformar estratégias de prevenção em larga escala.

A integração entre IA, imagem avançada e pesquisa clínica sinaliza um novo modelo de cuidado em medicina vascular, no qual diagnóstico preciso e tratamento individualizado caminham juntos.

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