As teleconsultas médicas, impulsionadas durante a pandemia de Covid-19, continuam a ganhar espaço nos sistemas de saúde europeus e seguem bem acima dos níveis registados antes de 2020. Embora o ritmo de crescimento varie entre países, especialistas apontam que a telemedicina já se consolidou como parte relevante da assistência em diversas regiões do continente.
De acordo com o relatório Panorama da Saúde 2025, da OCDE, em 2019 a média de consultas médicas remotas nos países analisados era de apenas 0,5 por pessoa ao ano. Com a chegada da pandemia, esse número mais do que duplicou em 2021, atingindo 1,3 consulta por pessoa.
Em 2023, houve uma estabilização em torno de 1 teleconsulta anual por habitante. Segundo o estudo, o cenário representa um recuo parcial em relação ao pico da crise sanitária, mas mantém patamares significativamente superiores aos observados antes da Covid-19. A maior parte dos dados refere-se a países europeus, que correspondem a 18 dos 22 analisados.
Diferenças marcantes entre os países
O avanço da telemedicina não ocorreu de forma uniforme. Espanha e Lituânia lideram o crescimento no número de consultas remotas por pessoa desde 2019. Na Espanha, a taxa passou de 0,3 para 1,7; na Lituânia, de 0,1 para 1,2.
Outros países também registaram aumentos expressivos, como Portugal (de 0,9 para 1,4), Croácia (de 0,7 para 1,7), Noruega (de 0,1 para 0,7) e Eslovénia (de 0,1 para 0,9). Já a Alemanha manteve o mesmo patamar, com cerca de 0,1 teleconsulta por pessoa, enquanto a França subiu de praticamente zero para 0,2.
Na Dinamarca e na Finlândia, houve ligeira redução após a pandemia, mas especialistas explicam que isso reflete um processo de normalização, já que esses países tinham forte tradição em consultas remotas antes de 2020.

Uma em cada cinco consultas já é remota
Em vários países europeus, as teleconsultas representam mais de 20% do total de atendimentos médicos. A Estónia lidera com 36%, seguida por Portugal (26%), Suécia (25%), Dinamarca (25%), Espanha (22%) e Croácia (20%).
Na média dos países analisados pela OCDE, cerca de 13% das consultas médicas já ocorrem à distância. Em contrapartida, a proporção permanece baixa nos países mais populosos do continente: apenas 1% na Alemanha e 4% na França.
Infraestrutura e políticas explicam avanço
Segundo especialistas ouvidos pela Euronews Health, o crescimento das teleconsultas está diretamente ligado a fatores estruturais. Para o chefe de dados e saúde digital da Organização Mundial da Saúde na Europa, David Novillo Ortiz, a pandemia funcionou como catalisador, mas a manutenção do modelo depende de políticas públicas, financiamento e capacidade tecnológica.
Países com estratégias nacionais de saúde digital bem definidas, sistemas interoperáveis e políticas de reembolso claras conseguiram integrar a telemedicina de forma mais estável. Já onde os incentivos financeiros foram reduzidos, a utilização caiu rapidamente.
Aceitação digital e modelo assistencial
Outro fator determinante é o nível de literacia digital da população e a abertura cultural para interações remotas. Especialistas destacam que sociedades mais familiarizadas com ferramentas digitais tendem a aderir mais facilmente às teleconsultas.
Além disso, sistemas de saúde com forte atenção primária e foco na gestão de doenças crónicas conseguem incorporar melhor esse tipo de atendimento. Em contrapartida, em países onde a consulta presencial ainda é vista como padrão absoluto, médicos e pacientes mostram maior resistência à substituição por modelos digitais.

Teleconsultas como parte do futuro da saúde
Embora não substituam totalmente o atendimento presencial, as teleconsultas consolidam-se como complemento relevante na assistência médica europeia. A tendência, segundo especialistas, é de crescimento gradual, condicionado à qualidade clínica, equidade no acesso e fortalecimento das infraestruturas digitais.
Com isso, a telemedicina deixa de ser apenas uma resposta emergencial à pandemia e passa a ocupar espaço permanente na organização dos cuidados de saúde na Europa.



