Entidades negras afirmam que COP30 ficou aquém do esperado

Entidades negras afirmam que COP30 ficou aquém do esperado

🕓 Última atualização em: 27/11/2025 às 18:41

A Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada entre 10 e 21 de novembro em Belém (PA), deixou frustrações entre organizações do movimento negro. A avaliação foi reforçada durante a Marcha das Mulheres Negras, que reuniu ativistas em Brasília nesta terça-feira (25), e apontou que o encontro internacional não entregou respostas concretas para temas considerados urgentes.

Fernanda Lopes, diretora de programas do Fundo Baobá — instituição que apoia mais de 1,5 mil iniciativas de promoção da equidade racial — lamentou a ausência de avanços no compromisso global de reduzir o uso de combustíveis fósseis. Segundo ela, a falta de metas claras amplia o risco de eventos climáticos extremos, que atingem com mais intensidade as populações negras.

“Sem uma rota para abandonar os fósseis, teremos mais enchentes, mais ondas de calor e menos condições de planejamento urbano. Isso afeta diretamente comunidades negras”, destacou.


Por que o tema importa?

A Marcha das Mulheres Negras ocorreu pela segunda vez na capital federal e reuniu pautas relacionadas à reparação histórica, igualdade racial, equidade de gênero e justiça climática. O evento também marcou a criação de um comitê dedicado a acompanhar impactos ambientais que atingem desproporcionalmente comunidades negras.

As críticas das lideranças presentes acompanham a insatisfação de cientistas e ambientalistas diante do documento final da COP30. O texto foi considerado insuficiente por não estabelecer metas específicas para conter o desmatamento ou reduzir emissões de gases de efeito estufa — pontos centrais para combater o racismo climático, segundo participantes da Marcha.

O governo brasileiro apresentou, durante a COP, um “mapa do caminho” para diminuir a dependência de combustíveis fósseis e zerar o desmatamento global. No entanto, a proposta não avançou devido à resistência de países como China e Índia.


Mulheres negras são as mais afetadas pela crise climática

A presidente da União de Negros e Negras pela Igualdade (Unegro Brasil), Marina Duarte, reforçou que a emergência climática tem impacto ainda maior sobre mulheres negras — grupo que soma 60,6 milhões de pessoas no país, segundo dados do Ministério da Igualdade Racial.

“Somos grande parte da força de trabalho brasileira, mas também as menos remuneradas. Essa desigualdade se reflete no racismo ambiental: quem ganha menos vive em moradias mais precárias e está mais exposta a riscos”, afirmou.

Dados do IBGE mostram que pessoas negras representam 72,9% da população que vive em favelas. Um relatório da ONG Habitat aponta ainda que 66% das famílias que residem em áreas de risco são negras. Entre 2013 e 2022, desastres ambientais danificaram 2 milhões de moradias e destruíram outras 107 mil.


Foz do Amazonas: tema ignorado na COP30, afirma movimento

Antes da COP30, o movimento da Marcha das Mulheres Negras lançou um manifesto por justiça climática e instalou um comitê para elaborar um relatório nacional com demandas contra desigualdades racial e social. O documento deverá ser entregue a parlamentares e representantes do governo federal.

Para Simy Corrêa, integrante do comitê e membro da Associação de Juristas pela Democracia (ABJD), outro ponto crítico negligenciado na conferência foi a autorização concedida à Petrobras para perfurar um poço de petróleo na Foz do Amazonas.

Segundo ela, o licenciamento ambiental não considerou toda a área de impacto da exploração, o que ameaça diretamente mulheres negras que vivem em comunidades costeiras do Pará e Maranhão.

“Os maretórios, onde atuam marisqueiras e pescadoras, ficam exatamente nessas áreas. São mulheres ribeirinhas, com ancestralidade indígena e quilombola, que dependem desse território para sobreviver”, explicou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *