Mapa mostra nova configuração das facções no Rio

Mapa mostra nova configuração das facções no Rio

Quase quatro milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem sob domínio ou influência direta de grupos armados. A atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados, divulgada nesta quinta-feira (4), revela uma reconfiguração do poder criminoso no estado, com crescimento do Comando Vermelho (CV), perda de território das milícias e fortalecimento do Terceiro Comando Puro (TCP) como a terceira maior facção.

O estudo foi produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Geni/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado (IFC). O levantamento analisa o avanço e a retração de grupos entre 2007 e 2024, com base em mais de 700 mil registros, dados estatísticos e investigação jornalística envolvendo mais de 20 municípios do Grande Rio.


Dados gerais do estudo

  • 4 milhões de pessoas estão sob controle criminal na Região Metropolitana;
  • CV amplia domínio territorial e populacional;
  • Milícias perdem áreas-chave após operações e prisões;
  • TCP ganha força e se torna o terceiro maior grupo armado do estado.

Comando Vermelho lidera o controle populacional

De acordo com o relatório, o Comando Vermelho é hoje a facção que concentra o maior número de moradores sob sua influência. Em 2024, o grupo contabilizava:

  • 1,6 milhão de habitantes sob controle direto;
  • 1,7 milhão sob controle ou influência;
  • 150 km² de área dominada, equivalente a 47,5% do território registrado como consolidado.

Entre 2007 e 2024, o domínio populacional do CV cresceu 30,9%, impulsionado por disputas territoriais e pelo enfraquecimento das milícias, especialmente em regiões onde estes grupos eram historicamente dominantes, como Jacarepaguá.

Segundo o coordenador da pesquisa, Daniel Hirata, a facção passou a se expandir por conquista, substituindo rivais em áreas já ocupadas, o que intensificou conflitos recentes. O avanço se concentra principalmente na Zona Norte, parte da Zona Oeste, Baixada Fluminense e áreas do Leste Metropolitano.


Milícias recuam após prisões e desarticulações

Embora ainda dominem a maior área territorial — somando 201 km² entre controle e influência — as milícias sofrem retração contínua desde 2020. A perda de hegemonia está ligada à prisão de lideranças e ações do Ministério Público, que desorganizaram estruturas antes consolidadas.

Entre os principais eventos que precipitaram essa mudança estão:

  • Operação Intocáveis (Gaeco/MPRJ);
  • Morte de Ecko em 2021, então principal liderança miliciana;
  • Prisão de Zinho em 2023, seu sucessor;
  • Queda de influência em Campo Grande, Santa Cruz, Paciência e outras áreas da Zona Oeste.

Com a desarticulação, o CV avançou sobre regiões até então consideradas inalcançáveis pela facção, redesenhando o mapa criminal do estado. Menor em extensão territorial, o Terceiro Comando Puro (TCP) cresce justamente onde existem disputas abertas e enfraquecimento de rivais. Em 2024, o grupo representava:

  • 11,28% da população sob controle ou influência;
  • 7,8% do território dominado.

A expansão ocorre majoritariamente por conquista de áreas previamente ocupadas, aumentando confrontos diretos com milícias e com o Comando Vermelho.


Estruturas políticas e o impacto no cotidiano da população

A pesquisa também destaca a relação entre crime armado e política local. Para Hirata, a ausência de instituições confiáveis impede o avanço na redução territorial do crime. Ele aponta que milícias alcançaram níveis de influência política semelhantes ao jogo do bicho e que outras facções buscam replicar esse modelo.

A instabilidade territorial impacta diretamente a população. Regiões que migraram de domínio miliciano para facções passaram a enfrentar confrontos constantes, interrupções de rotina, tiroteios e risco permanente de violência armada. Apesar de quatro décadas de ações de segurança, o relatório aponta que o controle territorial armado cresceu 130% entre 2007 e 2024. Hirata afirma que operações, por não serem contínuas, raramente diminuem o poder dos grupos criminosos. Em muitos casos, apenas favorecem a troca de domínio entre facções rivais.

“As pessoas vivem com a rotina interrompida o tempo todo. A qualquer momento pode haver confronto, bala perdida ou deslocamento forçado”, explica o pesquisador.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *