Mapa mostra nova configuração das facções no Rio

Mapa mostra nova configuração das facções no Rio

🕓 Última atualização em: 04/12/2025 às 11:39

Quase quatro milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem sob domínio ou influência direta de grupos armados. A atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados, divulgada nesta quinta-feira (4), revela uma reconfiguração do poder criminoso no estado, com crescimento do Comando Vermelho (CV), perda de território das milícias e fortalecimento do Terceiro Comando Puro (TCP) como a terceira maior facção.

O estudo foi produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Geni/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado (IFC). O levantamento analisa o avanço e a retração de grupos entre 2007 e 2024, com base em mais de 700 mil registros, dados estatísticos e investigação jornalística envolvendo mais de 20 municípios do Grande Rio.


Dados gerais do estudo

  • 4 milhões de pessoas estão sob controle criminal na Região Metropolitana;
  • CV amplia domínio territorial e populacional;
  • Milícias perdem áreas-chave após operações e prisões;
  • TCP ganha força e se torna o terceiro maior grupo armado do estado.

Comando Vermelho lidera o controle populacional

De acordo com o relatório, o Comando Vermelho é hoje a facção que concentra o maior número de moradores sob sua influência. Em 2024, o grupo contabilizava:

  • 1,6 milhão de habitantes sob controle direto;
  • 1,7 milhão sob controle ou influência;
  • 150 km² de área dominada, equivalente a 47,5% do território registrado como consolidado.

Entre 2007 e 2024, o domínio populacional do CV cresceu 30,9%, impulsionado por disputas territoriais e pelo enfraquecimento das milícias, especialmente em regiões onde estes grupos eram historicamente dominantes, como Jacarepaguá.

Segundo o coordenador da pesquisa, Daniel Hirata, a facção passou a se expandir por conquista, substituindo rivais em áreas já ocupadas, o que intensificou conflitos recentes. O avanço se concentra principalmente na Zona Norte, parte da Zona Oeste, Baixada Fluminense e áreas do Leste Metropolitano.


Milícias recuam após prisões e desarticulações

Embora ainda dominem a maior área territorial — somando 201 km² entre controle e influência — as milícias sofrem retração contínua desde 2020. A perda de hegemonia está ligada à prisão de lideranças e ações do Ministério Público, que desorganizaram estruturas antes consolidadas.

Entre os principais eventos que precipitaram essa mudança estão:

  • Operação Intocáveis (Gaeco/MPRJ);
  • Morte de Ecko em 2021, então principal liderança miliciana;
  • Prisão de Zinho em 2023, seu sucessor;
  • Queda de influência em Campo Grande, Santa Cruz, Paciência e outras áreas da Zona Oeste.

Com a desarticulação, o CV avançou sobre regiões até então consideradas inalcançáveis pela facção, redesenhando o mapa criminal do estado. Menor em extensão territorial, o Terceiro Comando Puro (TCP) cresce justamente onde existem disputas abertas e enfraquecimento de rivais. Em 2024, o grupo representava:

  • 11,28% da população sob controle ou influência;
  • 7,8% do território dominado.

A expansão ocorre majoritariamente por conquista de áreas previamente ocupadas, aumentando confrontos diretos com milícias e com o Comando Vermelho.


Estruturas políticas e o impacto no cotidiano da população

A pesquisa também destaca a relação entre crime armado e política local. Para Hirata, a ausência de instituições confiáveis impede o avanço na redução territorial do crime. Ele aponta que milícias alcançaram níveis de influência política semelhantes ao jogo do bicho e que outras facções buscam replicar esse modelo.

A instabilidade territorial impacta diretamente a população. Regiões que migraram de domínio miliciano para facções passaram a enfrentar confrontos constantes, interrupções de rotina, tiroteios e risco permanente de violência armada. Apesar de quatro décadas de ações de segurança, o relatório aponta que o controle territorial armado cresceu 130% entre 2007 e 2024. Hirata afirma que operações, por não serem contínuas, raramente diminuem o poder dos grupos criminosos. Em muitos casos, apenas favorecem a troca de domínio entre facções rivais.

“As pessoas vivem com a rotina interrompida o tempo todo. A qualquer momento pode haver confronto, bala perdida ou deslocamento forçado”, explica o pesquisador.

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