Famílias ensinam gestos para bebês se comunicarem antes da fala

Famílias ensinam gestos para bebês se comunicarem antes da fala

🕓 Última atualização em: 08/01/2026 às 09:14

Vídeos de famílias ensinando gestos simples para bebês expressarem vontades antes de aprender a falar têm ganhado destaque nas redes sociais. A prática, conhecida popularmente como “linguagem de sinais para bebês”, promete facilitar a comunicação e reduzir o choro nos primeiros meses de vida.

Especialistas explicam, no entanto, que a técnica não tem relação com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e deve ser aplicada com cuidado para não interferir no desenvolvimento da fala.

Técnica usa gestos simples e não substitui a linguagem oral

A estratégia consiste em ensinar gestos básicos para que o bebê indique necessidades como fome, sede, sono ou troca de fralda. A ideia é antecipar a comunicação antes que a criança consiga articular palavras.

“Não estamos falando de Libras, que é uma língua completa, com gramática e estrutura próprias. No caso dos bebês ouvintes, são gestos simples, combinados dentro da família e sempre acompanhados da fala”, explica o otorrinolaringologista e foniatra Gilberto Ferlin, do Hospital Paulista, em São Paulo.

Os sinais não seguem um padrão universal e podem variar conforme a rotina de cada família, desde que sejam usados de forma consistente.

A partir de que idade os gestos podem ser ensinados

Segundo especialistas, entre os 6 e 8 meses o bebê já desenvolveu coordenação motora suficiente para realizar movimentos simples com as mãos, mesmo antes de conseguir organizar a fala.

“Nessa fase, a criança já consegue se expressar de forma não verbal. Os gestos funcionam como um apoio temporário à comunicação”, explica o neurologista infantil Anderson Nitsche, do Hospital Pequeno Príncipe.

É fundamental que os adultos façam o gesto e digam a palavra correspondente ao mesmo tempo, reforçando a associação entre movimento e linguagem oral.

Uso de gestos pode atrasar a fala?

De acordo com fonoaudiólogos e neurologistas, o uso de gestos não provoca atraso na fala quando é sempre acompanhado de palavras. Pelo contrário, pode ampliar o vocabulário e facilitar a transição para a comunicação oral.

“O gesto deve vir junto com a fala. Se a criança apenas aponta ou sinaliza e já recebe o que quer, sem estímulo verbal, pode haver menos incentivo para falar”, alerta a fonoaudióloga Mariana Peters.

Com o avanço da linguagem oral, a tendência é que o bebê abandone naturalmente os gestos e passe a se comunicar prioritariamente por palavras.

Atenção aos marcos do desenvolvimento

Mesmo utilizando gestos, é essencial observar os marcos esperados do desenvolvimento da fala. Especialistas indicam que, por volta de 1 ano, a criança já deve pronunciar algumas palavras simples, e entre 18 e 24 meses, começar a formar pequenas combinações.

“O fato de a criança conseguir se comunicar por gestos não elimina a necessidade de desenvolver a fala. Se isso não ocorrer dentro do esperado, é importante procurar um pediatra ou fonoaudiólogo”, orienta Nitsche.

Técnica é opcional e não obrigatória

Os especialistas reforçam que ensinar gestos não é uma exigência para o bom desenvolvimento cognitivo da criança. Bebês que não utilizam essa estratégia também aprendem a falar normalmente.

“O mais importante é o vínculo, a interação e o acompanhamento do desenvolvimento. O método é secundário”, afirma o neurologista.

Benefícios e limites da prática

Estudos indicam que o uso de gestos pode reduzir frustrações, melhorar a comunicação e fortalecer o vínculo entre pais e filhos. A criança consegue expressar necessidades com mais clareza, o que pode diminuir episódios de choro.

Por outro lado, especialistas alertam para promessas exageradas. Não há evidências científicas de que a técnica aumente a inteligência ou traga ganhos cognitivos além do esperado.

“Não é uma fórmula mágica. Pode ajudar na comunicação, mas não substitui a linguagem oral nem garante vantagens intelectuais”, conclui Nitsche.

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