Especialistas apontam mudança na ordem mundial após ação dos EU

Especialistas apontam mudança na ordem mundial após ação dos EU

🕓 Última atualização em: 08/01/2026 às 09:22

A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro no último sábado (3), não impactou apenas a América Latina. Segundo analistas em relações internacionais, o episódio representa um marco na reorganização do poder global e sinaliza o enfraquecimento da ordem geopolítica vigente desde o fim da Guerra Fria.

Para especialistas, o mundo passa a viver um novo arranjo internacional, centrado principalmente em Estados Unidos e China, com a Rússia exercendo influência relevante, ainda que em menor escala.

Ataque à Venezuela expôs nova dinâmica de poder global

A operação autorizada pelo governo de Donald Trump evidenciou, segundo analistas, que grandes potências passaram a agir de forma mais direta e unilateral, ignorando fronteiras, acordos multilaterais e instituições internacionais.

“Nós acordamos em 3 de janeiro em um mundo diferente”, afirmou o professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, ao avaliar o impacto da ação militar em Caracas.

De acordo com especialistas, Estados Unidos, China e Rússia assumem hoje os principais polos de poder, atuando para proteger e expandir suas áreas de influência estratégica.

Grandes potências ampliam influência com ações militares

Entre os elementos que sustentam essa leitura estão ações recentes das principais potências globais:

  • A Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e mantém o conflito no Leste Europeu;
  • Os Estados Unidos realizaram a incursão militar na Venezuela e têm feito ameaças à Groenlândia;
  • A China é acusada de avançar sobre águas territoriais de países vizinhos e de construir ilhas artificiais com fins militares.

Essas ações, segundo analistas, ocorrem sob o discurso de proteção de áreas estratégicas e rompem com princípios estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial, como a soberania nacional e o respeito ao direito internacional.

Enfraquecimento da ordem multilateral pós-Guerra Fria

Após o colapso da União Soviética, o mundo passou por um período de hegemonia dos Estados Unidos, seguido por uma ordem considerada multipolar, com a presença de diferentes centros de poder, como Europa, Japão, China e países do Brics.

Esse modelo era sustentado por instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para especialistas, essa estrutura vem sendo progressivamente enfraquecida, e a ofensiva dos EUA na Venezuela consolidou esse processo.

Para a cientista política Oona Hathaway, professora da Universidade Yale, a ação americana representa o fim de uma fase de estabilidade relativa. “Isso ameaça nos levar de volta a um mundo em que a força se sobrepõe às regras”, avaliou.

Rússia: potência regional ou terceiro polo global?

Ainda não há consenso entre especialistas sobre o papel da Rússia na nova configuração internacional. Alguns analistas defendem que o mundo caminha para uma ordem bipolar, dominada por Estados Unidos e China, com Moscou exercendo influência regional.

Apesar de possuir um dos maiores arsenais militares do mundo, a Rússia enfrenta limitações econômicas e tecnológicas quando comparada às duas maiores economias globais.

Mesmo assim, o governo de Vladimir Putin mantém um conflito prolongado na Ucrânia e influencia diretamente decisões de segurança na Europa, forçando países do continente a ampliar gastos militares.

Para Leonardo Trevisan, a Rússia tende a manter um papel regional, enquanto o eixo principal do poder global se organiza entre Washington e Pequim.

Expansão chinesa e disputa por áreas estratégicas

O crescimento econômico acelerado e o fortalecimento militar da China reforçam o cenário de polarização global. Sob a liderança de Xi Jinping, o país ampliou investimentos em defesa e adotou uma postura mais assertiva em questões territoriais.

Embora Pequim mantenha oficialmente uma política de não intervenção, exercícios militares ao redor de Taiwan e a construção de ilhas artificiais no Mar do Sul da China indicam uma estratégia de expansão e proteção de interesses estratégicos.

“A China vive ciclos de projeção internacional e retração. Neste momento, está claramente em fase de expansão”, avalia Trevisan.

EUA reforçam discurso de domínio regional

A ação dos Estados Unidos na Venezuela também foi interpretada como um movimento para conter a influência chinesa na América Latina, região considerada estratégica por Washington.

Para o professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, o episódio reforça a transição para um mundo organizado em esferas de influência.

“Grandes potências passam a agir com liberdade em seus ‘quintais’, sem grande preocupação com regras internacionais”, afirmou.

Horas após a operação, Donald Trump declarou a intenção de resgatar princípios da Doutrina Monroe, política histórica dos EUA voltada à ampliação de influência sobre o continente americano. Na segunda-feira, o Departamento de Estado reforçou a mensagem ao afirmar: “Este é o nosso Hemisfério”.

Instituições internacionais perdem relevância

Outro ponto destacado por analistas é o enfraquecimento das instituições multilaterais. Para o professor Vitelio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a violação recorrente da Carta da ONU demonstra a perda de força do sistema internacional baseado em regras.

“Estamos vendo países ignorarem o direito internacional, inclusive aqueles que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança”, afirmou.

Disputa entre EUA e China tende a se intensificar

A rivalidade entre Estados Unidos e China é apontada como um dos principais motores da nova ordem global. Além de disputas comerciais e tarifárias, o confronto se estende ao campo diplomático e estratégico.

Após a ofensiva na Venezuela, autoridades chinesas acusaram os EUA de agirem como “juízes do mundo”. Já Washington teria pressionado o novo governo venezuelano a reduzir laços com Pequim, um dos principais parceiros comerciais do país sul-americano.

Para analistas, essa disputa tende a se intensificar, com o uso crescente de diplomacia, comércio e influência econômica como instrumentos de poder.

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