A Promotoria de Berlim apresentou uma acusação formal contra um deputado federal do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), suspeito de ter feito um gesto associado ao nazismo dentro do Parlamento alemão. O denunciado é Matthias Moosdorf, integrante da legenda desde 2016 e figura de destaque dentro do partido.
Segundo o Ministério Público, o episódio aconteceu em 2023, em uma área reservada do Bundestag. Conforme a investigação, o parlamentar teria cumprimentado um colega com uma batida dos calcanhares em estilo militar, seguida da extensão do braço direito — movimento historicamente ligado ao regime nazista. Os promotores afirmam que Moosdorf sabia que o gesto podia ser observado por outras pessoas presentes no local. O deputado tem 60 anos, formação em música e representa o distrito de Zwickau, na Saxônia, região do leste do país.
A AfD, partido ao qual Moosdorf pertence, foi classificada em fevereiro pela agência de inteligência interna da Alemanha como um grupo de extrema direita que representa ameaça à ordem democrática. A legenda é conhecida por posições duras contra a imigração e por recorrentes controvérsias envolvendo seus representantes.
Uso de símbolos proibidos e possíveis punições
Na Alemanha, manifestações de apologia ao nazismo — incluindo símbolos, gestos e slogans — são crimes previstos em lei desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Caso a Justiça aceite a denúncia e condene o parlamentar, Moosdorf pode ser punido com multa ou pena de até três anos de prisão. Em outubro, o Parlamento já havia suspendido sua imunidade, permitindo o avanço das investigações.
Agora, cabe ao tribunal de Berlim avaliar se a acusação será aceita e convertida em processo criminal por uso de símbolos anticonstitucionais.
Moosdorf já esteve envolvido em outras polêmicas. Em setembro, foi punido pelo próprio AfD com uma multa de 2 mil euros (aproximadamente R$ 12,7 mil) após viajar à Rússia sem autorização da legenda. O deputado mantém vínculos com o governo russo e recebeu o título de professor honorário em um conservatório do país.
Em suas redes sociais, Moosdorf negou a acusação e classificou o processo como “absurdo”. Ele afirmou que a denúncia, composta por cerca de 200 páginas, se baseia no depoimento de apenas uma testemunha — um ex-deputado do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. Segundo o parlamentar, outras oito pessoas que estavam no local, entre seguranças e funcionários do Bundestag, teriam rejeitado a versão apresentada pela Promotoria.
Histórico de controvérsias no AfD
O caso reforça uma sequência de problemas judiciais envolvendo membros do AfD. Em 2024, Björn Höcke, líder do partido no estado da Turíngia, foi condenado ao pagamento de multas após utilizar um slogan ligado ao período nazista durante um discurso público. Já o deputado Maximilian Krah teve a imunidade suspensa por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas à China. Um ex-assessor de Krah no Parlamento Europeu foi condenado a quatro anos e nove meses de prisão por espionagem a favor de Pequim.
Fundada em 2013 como uma sigla eurocética de orientação liberal, a AfD passou por uma radicalização após a crise migratória de 2015 e 2016. Desde então, alas mais moderadas perderam espaço para lideranças alinhadas à extrema direita, que hoje dominam o discurso do partido e mantêm conexões com movimentos ultraconservadores internacionais.
Nas eleições federais de 2024, a AfD conquistou a segunda maior bancada do Parlamento alemão e, nos últimos meses, tem aparecido entre os primeiros colocados em pesquisas de intenção de voto.



