Após mais de duas décadas de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul — formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — e a União Europeia volta ao centro do debate e pode avançar nos próximos dias. A expectativa do governo brasileiro é que a assinatura ocorra durante a Cúpula do Mercosul, marcada para sábado (20), em Foz do Iguaçu, desde que os trâmites finais sejam concluídos no bloco europeu.
Na Europa, a decisão passa por etapas decisivas. O Parlamento Europeu vota nesta terça-feira (16) medidas de proteção ao agronegócio local, enquanto o Conselho da União Europeia se reúne entre quinta (18) e sexta-feira (19). Autoridades europeias indicaram que, caso haja sinal verde, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar o acordo em território brasileiro.
Salvaguardas preocupam produtores brasileiros
Um dos pontos mais sensíveis do tratado são as chamadas salvaguardas, mecanismos que permitem à União Europeia suspender temporariamente benefícios tarifários se considerar que importações do Mercosul estão prejudicando setores agrícolas locais. A proposta prevê que, se as importações de produtos considerados sensíveis crescerem mais de 5% na média de três anos, a UE poderá abrir investigação e interromper vantagens comerciais.
Entidades do agro brasileiro avaliam essas regras com cautela. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), há o risco de que o livre comércio prometido no acordo seja relativizado por decisões unilaterais da UE. Especialistas também alertam para cláusulas que exigem que países do Mercosul sigam normas produtivas europeias, o que pode gerar insegurança jurídica e questionamentos sobre o uso de defensivos e fertilizantes permitidos no Brasil.
O que muda para carnes, café e outros produtos
Caso o acordo entre em vigor, 77% dos produtos agropecuários exportados do Mercosul para a União Europeia terão tarifas de importação eliminadas de forma gradual, em prazos que variam entre quatro e dez anos. Produtos como café solúvel, frutas, óleos vegetais, pescados e crustáceos estão entre os principais beneficiados.
No setor de carnes, considerado estratégico e sensível, haverá cotas específicas. Para a carne bovina, os países do Mercosul poderão exportar juntos até 99 mil toneladas por ano com tarifa reduzida, enquanto as carnes de frango terão uma cota de até 180 mil toneladas anuais com tarifa zero. Já a soja, principal item do agro brasileiro vendido à UE, não deve sofrer mudanças, pois já entra no mercado europeu sem taxação.
Impacto econômico e cenário geopolítico
O acordo surge em um contexto de reconfiguração do comércio global. As exportações brasileiras para os Estados Unidos sofreram impacto recente após medidas tarifárias adotadas pelo governo americano, o que reforçou o interesse do Brasil em diversificar mercados. Para a União Europeia, o tratado também representa uma forma de reduzir a dependência da China em áreas estratégicas e ampliar vendas de veículos, máquinas, produtos químicos, vinhos e queijos ao Mercosul.
Negociado desde 1999, o acordo UE-Mercosul envolve cerca de 722 milhões de pessoas e um PIB combinado estimado em US$ 22 trilhões. Se confirmado, poderá se tornar um dos maiores tratados comerciais do mundo, com impacto direto sobre o agronegócio brasileiro e o comércio internacional nas próximas décadas.
Ranking: os produtos do agro brasileiro mais exportados para a União Europeia em 2024
1º Complexo soja (grão, farelo e óleo)
Com cerca de US$ 7,09 bilhões, o complexo soja lidera as exportações do agro brasileiro para a UE. O produto é essencial para a indústria europeia de alimentos e ração animal.
2º Café
O café aparece na segunda posição, com aproximadamente US$ 5,73 bilhões em vendas. O Brasil segue como principal fornecedor do grão para o mercado europeu, sobretudo para torrefação e indústria.
3º Produtos florestais (celulose, papel e madeira)
As exportações desse segmento somaram cerca de US$ 3,31 bilhões, impulsionadas pela demanda por celulose e papel em países da Europa.
4º Sucos (principalmente suco de laranja)
O Brasil exportou cerca de US$ 1,85 bilhão em sucos para a UE, mantendo liderança global no fornecimento do produto.
5º Carnes
As carnes brasileiras — especialmente bovina e de frango — movimentaram aproximadamente US$ 1,29 bilhão, mesmo com cotas e exigências sanitárias rigorosas.
6º Frutas (inclui nozes e castanhas)
O grupo de frutas somou cerca de US$ 756 milhões, com destaque para castanhas, frutas tropicais e produtos processados.
7º Fumo e seus produtos
As exportações de fumo alcançaram aproximadamente US$ 906 milhões, mantendo a UE como um dos principais mercados do tabaco brasileiro.
8º Cereais, farinhas e preparações
O segmento registrou cerca de US$ 358 milhões em vendas, atendendo principalmente à indústria alimentícia europeia.
9º Complexo sucroalcooleiro (açúcar e etanol)
As exportações do setor totalizaram cerca de US$ 373 milhões, com destaque para açúcar bruto e refinado.
10º Produtos oleaginosos (exceto soja)
Fechando o top 10, esse grupo somou aproximadamente US$ 296 milhões, incluindo óleos e sementes diversas.
O ranking mostra que a União Europeia compra majoritariamente commodities agrícolas brasileiras, mas também mantém demanda relevante por produtos industrializados e de maior valor agregado, como café processado, sucos e derivados florestais.



