Talco e amianto: o que a ciência já sabe sobre o risco de câncer

Talco e amianto: o que a ciência já sabe sobre o risco de câncer

🕓 Última atualização em: 27/11/2025 às 11:25

Desde a década de 1970, pesquisas vêm levantando dúvidas sobre a segurança do talco — um mineral amplamente utilizado em cosméticos e produtos de higiene. Em diferentes estudos, inclusive alguns encomendados pela própria Johnson & Johnson, há indicações de que o talco poderia estar associado ao desenvolvimento de câncer. Por outro lado, especialistas defendem que o real perigo está no amianto, substância cancerígena que pode contaminar o talco durante o processo de mineração. A empresa farmacêutica, no entanto, nega que seus produtos contenham amianto.

A controvérsia ganhou força após inúmeros processos contra a Johnson & Johnson, que resultaram em indenizações bilionárias. Como consequência, a marca abandonou o uso de talco mineral e passou a produzir seu talco em pó à base de amido de milho, mudança que também chegou ao mercado brasileiro no início da década de 2020.

Mesmo com décadas de debate científico, o talco segue presente no cotidiano de milhões de pessoas pelo mundo. Para especialistas, porém, a alternativa mais segura é optar por produtos feitos exclusivamente com amido de milho. Uma revisão publicada no ano 2000 concluiu que talcos perineais formulados apenas com esse ingrediente não aumentam o risco de câncer de ovário, área que concentra a maior preocupação sobre o uso íntimo do produto.

Talco e câncer: relação ainda incerta

Apesar de muitos estudos, ainda não há consenso científico sobre uma ligação direta entre talco mineral puro e câncer de ovário. Parte dessa dúvida decorre da presença de amianto em algumas amostras analisadas nas últimas décadas.

Segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), órgão da OMS, o talco foi classificado em 2024 como “provavelmente cancerígeno”, mas com ressalvas: as evidências em humanos são consideradas limitadas, e a relação causal não pôde ser estabelecida com segurança. Em animais de laboratório, contudo, os sinais foram mais consistentes.

Ainda nos anos 1970, análises encontraram talco em tecidos de tumores ovarianos — e, em alguns casos, também amianto. Estudos financiados pela Johnson & Johnson na época confirmaram essa dupla presença. Já o amianto, por sua vez, tem sua carcinogenicidade amplamente comprovada, segundo a própria OMS.

Como ocorre a contaminação por amianto

Talco e amianto são minerais que podem surgir lado a lado na natureza. Ambos compartilham características físicas e químicas, o que facilita a contaminação durante a extração. Em alguns depósitos, as fibras de amianto podem aparecer em quantidades microscópicas ou em grandes concentrações, dificultando a separação entre os materiais.

A ausência de métodos padronizados para identificar amianto também contribui para a inconsistência nos testes. Em 2024, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, propôs novas diretrizes para unificar os procedimentos de detecção em cosméticos, mas as regras ainda estão em avaliação.

Por que o amianto causa câncer

As fibras de amianto podem permanecer presas nos pulmões por longos períodos quando inaladas. A inflamação crônica e a formação de cicatrizes aumentam o risco de desenvolvimento de tumores, além de causar sintomas respiratórios.

Profissionais que trabalham em minas de talco, construção civil ou indústrias que utilizam o mineral como reforço térmico também estão mais expostos.

No uso íntimo, caso partículas contaminadas cheguem aos ovários, há possibilidade de alterações celulares que podem evoluir para câncer.

Tipos de câncer associados ao talco contaminado com amianto

Quando o talco contém amianto, estudos apontam risco para diferentes tipos de câncer, como:

  • Mesotelioma: tumor raro que afeta o revestimento de pulmões, coração e testículos.
  • Câncer de pulmão: provocado por fibras inaladas que causam mutações celulares.
  • Câncer de ovário: o mais documentado entre os possíveis efeitos associados ao uso de talco íntimo.

Em 2018, a Johnson & Johnson foi condenada a pagar quase US$ 5 bilhões a 22 mulheres que alegaram ter desenvolvido câncer de ovário após usar produtos da marca. Em 2025, consumidores do Reino Unido abriram nova ação coletiva com acusação semelhante.

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