Um microrganismo de alta resistência e difícil diagnóstico está gerando preocupação nas autoridades sanitárias europeias. Trata-se do Candida auris (ou Candidozyma auris), um fungo com potencial letal que se dissemina principalmente em ambientes hospitalares e que já registrou os primeiros casos confirmados em Portugal.
Um estudo recente, conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e publicado no Journal of Fungi, identificou oito casos em território nacional, um número superior aos quatro registros inicialmente apontados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC).
O perigo oculto nos hospitais
Diferente de infecções comuns, o Candida auris não costuma circular amplamente na comunidade. Seu foco de transmissão são as unidades de saúde, onde encontra pacientes vulneráveis. Segundo a professora Sofia Costa de Oliveira, da FMUP, a grande ameaça reside em três fatores:
- Resistência: O fungo é imune a diversos medicamentos antifúngicos convencionais.
- Sobrevivência: Ele consegue resistir a desinfetantes comuns e sobreviver por longos períodos em superfícies e equipamentos médicos.
- Diagnóstico complexo: Frequentemente é confundido com outras espécies de fungos em exames laboratoriais simples, o que atrasa o tratamento correto.
Taxas de mortalidade e grupos de risco
Embora não deva causar pânico na população saudável, o superfungo é extremamente perigoso para quem já está debilitado. Em casos de infecção na corrente sanguínea ou órgãos vitais, as taxas de mortalidade internacionais variam entre 30% e 60%.
Os principais fatores de risco incluem:
- Internações prolongadas ou cirurgias recentes.
- Uso de dispositivos invasivos, como cateteres e sondas.
- Sistema imunológico comprometido ou doenças crônicas graves.
No levantamento feito em Portugal, os óbitos registrados ocorreram em pacientes com quadros clínicos já bastante críticos, o que reforça que o fungo atua como um complicador severo em organismos já fragilizados.
Avanço global: De 2009 aos dias atuais
Identificado pela primeira vez no Japão, em 2009, o Candida auris já alcançou mais de 40 países. Na Europa, o crescimento é notável: entre 2013 e 2023, foram notificados mais de 4 mil casos. No Reino Unido, apenas entre o final de 2024 e o início de 2026, houve um aumento de 23% nas ocorrências.
A contenção do fungo depende estritamente de protocolos rígidos de higiene hospitalar, tais como:
- Higienização constante das mãos (água e sabão ou álcool em gel).
- Desinfecção profunda de quartos e aparelhos médicos.
- Isolamento e identificação rápida de pacientes portadores.
Especialistas reforçam que a vigilância contínua é a única forma de evitar que o surto se transforme em uma crise de saúde pública, dada a facilidade com que o microrganismo se “esconde” nas rotinas hospitalares.



