O presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, elevou o tom contra a Casa Branca ao afirmar que enfrenta uma ofensiva política sem precedentes do governo dos Estados Unidos. Segundo ele, a ameaça de uma possível acusação criminal teria sido usada como pretexto para interferir na política monetária, especialmente nas decisões sobre a taxa de juros. O governo nega qualquer tentativa de interferência.
Fed reage após anos de embates silenciosos
Desde que assumiu o comando do banco central americano, em 2018, Jerome Powell manteve uma postura institucional cautelosa diante das críticas do então presidente Donald Trump. No entanto, no último domingo (11), o dirigente rompeu o silêncio e fez declarações públicas que evidenciam o agravamento da tensão entre o Fed e o Executivo.
Powell revelou que o Departamento de Justiça notificou a instituição com intimações de um grande júri e sinalizou a possibilidade de uma acusação criminal relacionada a seu depoimento ao Senado, realizado no ano passado. O foco da investigação seria um projeto de reforma e modernização de prédios históricos do Federal Reserve.
Acusação é vista como tentativa de constrangimento político
De acordo com o presidente do Fed, a iniciativa não encontra respaldo técnico nem jurídico. Ele argumenta que o Congresso foi devidamente informado sobre o projeto e que a fiscalização legislativa foi respeitada em todas as etapas.
Para Powell, a ameaça de responsabilização criminal faz parte de uma escalada de pressões políticas com o objetivo de constranger a autoridade monetária e influenciar decisões sobre os juros, em um momento em que o governo pressiona por cortes mais rápidos nas taxas.
O dirigente afirmou que respeita o Estado de Direito, mas classificou a situação como inédita na história recente dos Estados Unidos, destacando o risco institucional envolvido.
Debate sobre a independência do banco central
As declarações marcam uma mudança significativa no posicionamento público de Jerome Powell. Pela primeira vez, ele atribuiu diretamente à administração presidencial uma tentativa de interferência na condução da política monetária por meio de instrumentos legais.
Segundo o presidente do Fed, o episódio ultrapassa uma disputa administrativa e se transforma em um embate institucional sobre quem deve definir os rumos da economia americana.
Risco de decisões sob pressão política
Powell alertou que a autonomia do banco central é essencial para que as decisões sobre a taxa de juros sejam baseadas em dados econômicos, e não em pressões políticas ou tentativas de intimidação.
O discurso ocorre em meio a uma relação deteriorada entre o chefe do Fed e Donald Trump, que tem intensificado críticas à política monetária e responsabilizado o banco central pelo ritmo do crescimento econômico. O presidente já chegou a mencionar publicamente a possibilidade de afastar Powell, apesar das garantias legais que protegem o mandato do cargo.
Reforma de prédios do Fed amplia o conflito
O projeto de modernização das instalações do Federal Reserve tornou-se um novo foco de atrito entre o governo e a autoridade monetária. Integrantes da administração passaram a classificar a obra como excessivamente onerosa.
Powell reiterou ao Congresso que as reformas são necessárias para atualizar uma infraestrutura antiga e afirmou que todas as informações foram prestadas de forma transparente aos parlamentares.
Mesmo assim, segundo ele, o tema foi utilizado como justificativa para intensificar a pressão política sobre o banco central.
Repercussão nos mercados financeiros
A tensão institucional teve reflexos imediatos nos mercados. As bolsas americanas operaram de forma mista, enquanto o dólar perdeu força frente a uma cesta de moedas globais. O ouro, tradicional ativo de proteção em períodos de incerteza, registrou valorização expressiva.
Economistas e analistas passaram a alertar para os riscos que uma interferência política no Federal Reserve pode trazer à estabilidade econômica dos Estados Unidos.
Críticas de Wall Street e ex-dirigentes econômicos
O economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, avaliou que a possibilidade de uma acusação criminal contra o presidente do Fed reforça preocupações sobre a independência da instituição. Segundo ele, não há dúvidas de que Powell continuará tomando decisões com base em dados econômicos, independentemente das pressões políticas.
Além disso, ex-presidentes do Federal Reserve e ex-secretários do Tesouro divulgaram uma declaração conjunta classificando a investigação como uma tentativa inédita de enfraquecer a autonomia do banco central.
Alerta para consequências econômicas
Os ex-dirigentes destacaram que o uso de instrumentos criminais contra autoridades monetárias é comum em países com instituições frágeis e tende a gerar efeitos negativos, como aumento da inflação e perda de credibilidade da política econômica.
Eles reforçaram que a independência do Federal Reserve é fundamental para o cumprimento das metas estabelecidas pelo Congresso, incluindo estabilidade de preços, pleno emprego e taxas de juros de longo prazo equilibradas.
Casa Branca nega interferência
Diante da repercussão, a Casa Branca afirmou que o presidente Donald Trump não ordenou nenhuma investigação contra Jerome Powell. A secretária de imprensa declarou que não houve determinação para apurar supostas irregularidades relacionadas ao depoimento do dirigente ao Congresso.
Apesar da negativa oficial, o episódio reacendeu o debate sobre os limites da atuação do Executivo e a preservação da autonomia do banco central americano.



