A recente movimentação diplomática de Donald Trump ao propor a criação de um “Conselho de Paz” internacional reacendeu uma das bandeiras históricas da política externa brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou o cenário para reforçar a necessidade de uma reforma estrutural no Conselho de Segurança da ONU, órgão que o governo brasileiro classifica como “defasado” e “pouco representativo”.
Para o Brasil, a arquitetura geopolítica desenhada após a Segunda Guerra Mundial não atende mais aos desafios do século XXI, especialmente após o agravamento de conflitos globais desde 2023.
O “Conselho de Paz” de Trump e a posição brasileira
A iniciativa da Casa Branca visa estabelecer um novo organismo para mediar crises, com foco inicial na estabilidade institucional e governança em zonas de conflito. Embora a proposta tenha surgido no contexto da Faixa de Gaza, o desenho norte-americano prevê uma atuação global.
Em diálogo direto com Trump, Lula sugeriu ajustes estratégicos:
- Foco Regional: Que o novo conselho atue prioritariamente na crise de Gaza neste momento.
- Inclusividade: A inclusão de representantes palestinos nas negociações, uma ausência notada na composição inicial da proposta dos EUA.
A crítica ao “Poder de Veto” e a exclusão do Sul Global
O cerne da insatisfação brasileira reside na composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido). O Brasil defende que a manutenção desse grupo restrito, com poder de veto, paralisa a eficácia da ONU diante de guerras complexas.
Lula tem articulado com líderes do BRICS, como Xi Jinping (China) e Narendra Modi (Índia), a expansão de assentos permanentes para nações da América Latina e África, visando um equilíbrio maior de forças no multilateralismo.
Desafios e obstáculos para a mudança
Apesar do otimismo diplomático, analistas alertam para as barreiras institucionais. Qualquer alteração na Carta da ONU exige a aprovação unânime dos atuais cinco membros permanentes. Especialistas indicam que, embora iniciativas como a de Trump sinalizem uma crise no modelo atual, os países que detêm o poder decisório dificilmente abrirão mão de suas prerrogativas sem uma pressão internacional sem precedentes.
Linha do Tempo: A ofensiva diplomática de Lula (2023-2025)
- 2023: Críticas contundentes às ações unilaterais de grandes potências em assembleias da ONU.
- 2024: Defesa da revisão dos métodos de trabalho e restrição do uso de veto.
- 2025: Alerta sobre a fragilização da autoridade da ONU e o risco ao multilateralismo.
A convergência de interesses entre Brasil, Índia e China coloca a reforma da governança global como prioridade na agenda de 2026. A proposta de Trump pode servir como o catalisador que faltava para que o debate saia do campo retórico e entre na fase de negociações práticas.



