Microplásticos no corpo, perigo no cérebro: Alzheimer e Parkinson

Microplásticos no corpo, perigo no cérebro: Alzheimer e Parkinson

🕓 Última atualização em: 08/12/2025 às 13:15

Um levantamento científico recente publicado na revista Molecular and Cellular Biochemistry revelou cinco mecanismos pelos quais microplásticos podem interferir no funcionamento do cérebro humano, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. O estudo é resultado de uma colaboração entre pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS), na Austrália, e da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos.

Os resultados reforçam um alerta que ganha força entre cientistas: além de contaminarem mares, alimentos e o ar que respiramos, os microplásticos conseguem ultrapassar barreiras internas do organismo e provocar processos inflamatórios capazes de deteriorar células nervosas ao longo do tempo.

Hoje, mais de 57 milhões de pessoas convivem com algum tipo de demência — um número que tende a crescer nas próximas décadas. Para os pesquisadores, a poluição por plástico pode se tornar um agravante importante nesse cenário.

Consumo anual: até 250 gramas de microplásticos por pessoa

De acordo com o professor Kamal Dua, da UTS, um adulto pode ingerir aproximadamente 250 gramas de microplásticos por ano — o equivalente a um prato cheio. O contato ocorre por diferentes fontes do cotidiano, como:

  • frutos do mar e sal contaminados
  • alimentos industrializados
  • saquinhos de chá
  • garrafas plásticas
  • tábuas de corte e utensílios domésticos
  • fibras liberadas por roupas sintéticas
  • poeira suspensa no ambiente

Embora parte seja eliminada naturalmente, pesquisas já mostrarem que microplásticos conseguem se alojar em tecidos e até alcançar o sistema nervoso central.

Como os microplásticos afetam o cérebro

A revisão científica identificou cinco formas principais de dano:

  1. Ativação exagerada do sistema imune cerebral — o corpo tenta destruir as partículas, mas desencadeia inflamação que compromete neurônios.
  2. Estresse oxidativo elevado — moléculas tóxicas são produzidas em excesso, acelerando a degeneração das células.
  3. Comprometimento da barreira hematoencefálica — o “filtro de proteção” do cérebro perde eficiência, permitindo entrada de toxinas.
  4. Danos às mitocôndrias — a produção de energia celular cai, deixando neurônios mais vulneráveis.
  5. Morte neuronal progressiva — a soma dos efeitos pode levar à perda irreversível de células nervosas.

Relação com Alzheimer e Parkinson

Segundo os cientistas, os microplásticos não são apontados como causa direta dessas doenças, mas podem acelerar sua progressão:

  • Alzheimer: estímulo ao acúmulo das proteínas amiloide e tau- O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta principalmente a memória, o raciocínio e o comportamento. Ela ocorre quando neurônios do cérebro começam a morrer de forma gradual, levando à perda de funções cognitivas ao longo do tempo. É o tipo mais comum de demência e costuma atingir pessoas acima dos 60 anos, embora possa aparecer mais cedo em casos raros. No Alzheimer, o cérebro acumula duas proteínas anormais: beta-amiloide e tau. Elas formam placas e emaranhados entre os neurônios, dificultando a comunicação entre as células nervosas e causando inflamação. Com o avanço do quadro, áreas responsáveis pela memória e pela linguagem são as primeiras a ser afetadas, seguidas de outras regiões do cérebro.
  • Parkinson: aumento da agregação de α-sinucleína, que prejudica os neurônios dopaminérgicos-O Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo progressivo que afeta principalmente a coordenação dos movimentos. Ela ocorre quando células localizadas na região do cérebro chamada substância negra começam a morrer gradualmente, reduzindo a produção de dopamina, neurotransmissor responsável pelo controle motor, equilíbrio e resposta muscular. A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas fatores genéticos e ambientais podem estar envolvidos. Além de alterações motoras, o Parkinson também pode provocar sintomas não motores, como depressão, distúrbios do sono, ansiedade, perda de olfato e comprometimento cognitivo com o avanço da doença. A idade é o maior fator de risco — a maioria dos casos surge após os 60 anos.

A conclusão é clara: mesmo que faltem provas absolutas, há fortes indícios de que microplásticos agravam doenças já existentes. O primeiro autor do estudo, Alexander Chi Wang Siu, investiga como as partículas alteram o funcionamento de células cerebrais. Paralelamente, o pesquisador Keshav Raj Paudel estuda o impacto da inalação de microplásticos nos pulmões — outra possível porta de entrada para o corpo humano.


Como reduzir a exposição ao plástico

Os especialistas recomendam medidas simples para o dia a dia:

  • escolher utensílios de vidro ou metal
  • evitar alimentos ultraprocessados
  • optar por roupas de fibras naturais
  • reduzir o uso de secadora de roupas
  • substituir plásticos descartáveis por alternativas reutilizáveis

Consequências para políticas ambientais

Os pesquisadores defendem que os resultados ajudem a impulsionar novas regulamentações, entre elas:

  • diminuição da produção de plástico
  • controle mais rígido sobre microplásticos em alimentos e embalagens
  • melhorias na reciclagem e no tratamento de resíduos
  • programas de prevenção focados em saúde pública

“Entender os impactos dessas partículas no cérebro é essencial para proteger as próximas gerações”, conclui Dua.

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