Serra Leoa enfrenta avanço de comércio ilegal ligado a rituais de magia

Serra Leoa enfrenta comércio ilegal ligado a rituais de magia

🕓 Última atualização em: 30/11/2025 às 09:16

Serra Leoa, um dos países mais pobres do mundo e ainda marcado pelas consequências de uma guerra civil de 11 anos (1991–2002), enfrenta um problema tão perturbador quanto silencioso: assassinatos supostamente cometidos para obtenção de partes humanas usadas em rituais de magia. A investigação do programa BBC Africa Eye encontrou praticantes de “juju” que afirmam fornecer órgãos e membros para cerimônias pagas por clientes em busca de poder e prosperidade.

A prática voltou aos holofotes com o caso de Papayo, menino de 11 anos morto há quatro anos. Sua mãe, Sally Kalokoh, afirma que o corpo do filho foi encontrado mutilado no fundo de um poço, após duas semanas de buscas. Até hoje, ninguém foi responsabilizado.

Segundo Kalokoh, partes essenciais do corpo do menino — como olhos, órgãos internos e um braço — haviam sido removidas. “Eles mataram meu filho, e tudo ficou em silêncio”, desabafou à BBC.

Rituais de “juju” e investigações que não avançam

Relatos envolvendo mortes para rituais mágicos são frequentes no país, mas raramente chegam a conclusões. A polícia, limitada pela falta de recursos e pela crença comum em feitiçaria, enfrenta dificuldades para investigar casos desse tipo.

Serra Leoa possui apenas um médico patologista para quase 9 milhões de habitantes, o que compromete a coleta de evidências e faz com que muitos crimes não sejam esclarecidos.

Investigação flagra praticantes oferecendo partes humanas

A equipe da BBC se passou por políticos interessados em rituais de poder para descobrir como funciona o comércio clandestino. Dois homens que afirmavam praticar juju aceitaram negociar partes humanas.

O primeiro, identificado como Kanu, recebeu os jornalistas em um santuário escondido em uma floresta no distrito de Kambia, próximo à fronteira com a Guiné. Usando máscara para esconder o rosto, disse trabalhar com “políticos influentes” de vários países da África Ocidental.

Em visitas gravadas com câmeras secretas, Kanu chegou a exibir um crânio humano, alegando que estava pronto para ser vendido. Ele também mostrou um fosso onde, segundo ele, partes humanas seriam penduradas durante os rituais.

O traficante ofereceu o corpo de uma mulher por 70 milhões de leones (aproximadamente US$ 3 mil).

O material coletado pela equipe foi entregue às autoridades, que iniciaram uma investigação.

Curadores tradicionais tentam se dissociar dos crimes

Os praticantes de juju se apresentam muitas vezes como “herbalistas”, o mesmo termo usado por curandeiros tradicionais do país. Em Serra Leoa, estima-se que existam 45 mil curadores, enquanto o número de médicos registrados é de cerca de mil.

O presidente do Conselho de Curadores Tradicionais, Sheku Tarawallie, diz que criminosos estão manchando a imagem dos profissionais legítimos. “Uma maçã podre destrói todas as demais. Somos curadores, não assassinos”, afirmou.

Tarawallie trabalha com a polícia na identificação de fraudadores e participou de uma operação que resultou na prisão de um suspeito chamado Idara, encontrado escondido no teto de uma casa com uma faca na mão. No local, foram achados cabelos, ossos e materiais associados a rituais clandestinos.

Mesmo assim, investigados costumam ser soltos por falta de provas ou lentidão judicial.

Sistema de justiça fragilizado deixa crimes impunes

Casos graves frequentemente ficam estagnados. Um professor desaparecido em Freetown teve o corpo encontrado em um santuário em 2023, mas o processo não avançou e suspeitos foram liberados sob fiança.

A repórter da BBC relata que sua própria família passou por situação semelhante: sua prima Fatmata Conteh, de 28 anos, foi encontrada morta em Makeni, com sinais que levantaram suspeita de ritual. Apesar de a família ter arcado com transporte do corpo até Freetown para autópsia, o laudo foi inconclusivo e nenhuma prisão foi realizada.

Medo cresce entre famílias e comunidades

A ausência de respostas das autoridades aumenta o clima de insegurança, especialmente entre famílias pobres. Muitos pais ensinam as crianças a evitar estranhos, não ir a locais isolados e recusar presentes — regras básicas que se tornam medidas de sobrevivência.

Enquanto isso, o comércio clandestino continua alimentado por crenças ancestrais, grupos criminosos e a sensação de impunidade, deixando famílias como a de Papayo e Fatmata sem justiça e comunidades inteiras à mercê do medo.

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