Ultraprocessados já representam quase um quarto da dieta dos brasileiros, aponta levantamento global

Ultraprocessados já representam quase um quarto da dieta dos brasileiros, aponta levantamento global

🕓 Última atualização em: 19/11/2025 às 09:41

O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil mais que dobrou desde os anos 1980, saltando de 10% para 23% da alimentação nacional. Os dados fazem parte de uma série de estudos divulgados nesta terça-feira (18) por mais de 40 pesquisadores, liderados por especialistas da Universidade de São Paulo (USP).

A publicação, apresentada na revista The Lancet, indica que o avanço do consumo não é uma realidade exclusiva do Brasil. A análise de 93 países mostra aumento na ingestão desses produtos em 91 deles. O Reino Unido é a exceção, mantendo estabilidade em torno de 50% da dieta composta por ultraprocessados. Nos Estados Unidos, essa proporção ultrapassa 60%, o maior nível registrado.

Segundo Carlos Monteiro, pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP) e coordenador da iniciativa, essa mudança global na alimentação é estimulada pela atuação de grandes corporações do setor:

“Esse novo padrão alimentar é impulsionado por empresas globais que priorizam produtos ultraprocessados, apoiadas por estratégias intensivas de marketing e pressões políticas que dificultam a adoção de políticas públicas voltadas à alimentação saudável”, afirmou.

Crescimento acelerado ao redor do mundo

O consumo disparou em diferentes regiões. Em três décadas, triplicou em países como Espanha e Coreia do Norte. Na China, a participação desses produtos nas compras domésticas passou de 3,5% para 10,4%. Na Argentina, aumentou de 19% para 29% no mesmo período.

A expansão ocorre em nações de baixa, média e alta renda. Países ricos, como Canadá, apresentam índices elevados (40%), enquanto outros com perfil econômico semelhante — como Itália e Grécia — mantêm taxas abaixo de 25%. A pesquisa destaca ainda que, em muitos lugares, os ultraprocessados começaram restritos às classes de maior renda, mas, com o tempo, se tornaram acessíveis a toda a população.

Relação com doenças crônicas cresce desde os anos 80

O estudo lembra que a presença dos ultraprocessados ganhou força em países desenvolvidos após a Segunda Guerra Mundial, mas se transformou em fenômeno global nos anos 80, acompanhando a expansão da industrialização e da globalização.

O aumento do consumo ocorreu paralelamente ao crescimento das taxas de obesidade e de doenças como diabetes tipo 2, câncer colorretal e problemas inflamatórios intestinais. A revisão sistemática conduzida pelos cientistas analisou 104 estudos de longo período — e 92 deles identificaram maior risco de doenças crônicas associado à ingestão de ultraprocessados.

“As evidências mostram que substituir dietas tradicionais por ultraprocessados é um dos principais fatores por trás da expansão global de doenças relacionadas à alimentação”, salientam os autores.

O que são alimentos ultraprocessados?

A definição ganhou notoriedade a partir da criação da classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores brasileiros em 2009. Ela divide os alimentos em quatro grupos: ver Reforma Tributária e o Setor de Hotelaria: impactos, desafios e oportunidades para a nova era fiscal do turismo e hospedagem no Brasil

  • In natura ou minimamente processados: frutas, verduras, legumes, carnes frescas, grãos embalados.
  • Ingredientes processados: açúcar, sal, óleos.
  • Processados: alimentos do grupo 1 combinados a ingredientes do grupo 2, como enlatados, pães simples e sucos 100% fruta.
  • Ultraprocessados: formulações industriais feitas com ingredientes baratos, aditivos e processos tecnológicos intensivos. Exemplos: refrigerantes, macarrão instantâneo, biscoitos recheados, iogurtes saborizados.

Segundo Monteiro, a classificação busca esclarecer como o processamento modifica a qualidade da dieta e a saúde, além de subsidiar políticas públicas como o Guia Alimentar para a População Brasileira.

Recomendações e medidas propostas

Os pesquisadores sugerem ações para reduzir a presença de ultraprocessados na dieta mundial e apontam a responsabilidade das grandes corporações na promoção desses produtos. Entre as medidas recomendadas:

  • Rotulagem clara de aditivos como corantes e aromatizantes.
  • Proibição de ultraprocessados em instituições públicas, como escolas e hospitais. O Brasil é citado como referência devido ao PNAE, que passará a exigir que 90% dos alimentos oferecidos nas escolas sejam frescos ou minimamente processados.
  • Restrições de publicidade, especialmente a conteúdos destinados a crianças.
  • Aumento da oferta de alimentos in natura, financiado por políticas como sobretaxação de produtos ultraprocessados para subsidiar alimentos frescos destinados a famílias de baixa renda.

Os autores reforçam que o crescimento do setor não é resultado de escolhas individuais, mas de um sistema alimentar moldado por interesses econômicos. Com faturamento global de US$ 1,9 trilhão, a indústria de ultraprocessados tem ampliado sua influência política e econômica, moldando padrões alimentares em escala global.

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