O Brasil está no centro das discussões ambientais globais ao conduzir a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), um novo mecanismo internacional que pretende remunerar países que preservam seus biomas tropicais. A proposta promete atrair bilhões em investimentos, mas também levanta dúvidas entre ambientalistas e governos sobre governança, transparência e efetividade.
O anúncio oficial deve ocorrer durante a Cúpula de Líderes da COP30, em Belém, evento preparatório para a conferência do clima organizada pelas Nações Unidas.
A seguir, entenda como funciona a iniciativa.
1. O que é o TFFF e qual a ideia central do fundo?
O TFFF nasce da constatação de que ainda é mais barato destruir a floresta do que mantê-la em pé. Atividades como exploração madeireira, conversão de áreas para agricultura e expansão urbana seguem gerando retornos financeiros rápidos, enquanto a conservação raramente oferece receita direta aos países que detêm grandes extensões de floresta tropical.
A proposta brasileira pretende inverter essa lógica por meio de um sistema global de pagamentos por desempenho, no qual nações tropicais receberiam recursos proporcionais à área preservada.
O cálculo seria feito com base em monitoramento por satélite e critérios técnicos pactuados internacionalmente.
O mecanismo busca transformar a floresta em um ativo econômico permanente: quanto maior a conservação, maior o pagamento anual. Em caso de aumento de desmatamento ou degradação, o repasse diminui.
O TFFF se diferencia de iniciativas como o REDD+ e dos tradicionais mercados de carbono porque não remunera apenas emissões evitadas ― ele paga pelo valor da floresta em pé, incluindo benefícios climáticos, biológicos e sociais.
2. Como será o pagamento aos países?
A meta do fundo é captar US$ 125 bilhões, o que pode torná-lo o maior mecanismo financeiro global direcionado à proteção de florestas tropicais.
Desse montante:
- US$ 25 bilhões devem vir de governos e fundações filantrópicas (Brasil, Noruega, Alemanha, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, China e outros parceiros).
- Outros US$ 100 bilhões seriam atraídos do mercado privado, usando os aportes iniciais como garantia e reduzindo o risco para investidores.
Os recursos serão aplicados em investimentos de baixo risco, excluindo setores ligados a combustíveis fósseis.
O rendimento anual, estimado entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, bancará os pagamentos aos países com desmatamento abaixo de 0,5% ao ano.
Um ponto central da proposta prevê que ao menos 20% do que cada país receber será repassado diretamente a povos indígenas e comunidades tradicionais, reconhecidos como os principais responsáveis pela proteção efetiva das florestas.
A administração dos recursos ficará a cargo do Banco Mundial, enquanto a governança técnica do fundo será feita por uma estrutura própria do TFFF.
3. Quem vai participar e quando será lançado?
A expectativa é que até 74 países tropicais e subtropicais possam aderir ao fundo, representando mais de 1 bilhão de hectares de floresta.
A Indonésia já confirmou interesse, enquanto Singapura, Gana, Malásia e outros negociam sua entrada.
O Brasil anunciou um aporte inicial de US$ 1 bilhão, tornando-se o primeiro país a se comprometer financeiramente e buscando ampliar o número de apoiadores antes do lançamento oficial na Cúpula de Líderes da COP30.
Durante o evento, chefes de Estado devem apresentar compromissos climáticos atualizados, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá destacar o TFFF como uma das principais inovações brasileiras para o financiamento climático global.
4. Quais são as principais críticas?
Apesar da grande expectativa, o TFFF tem enfrentado resistência de organizações ambientais, movimentos sociais e analistas de governança climática. As críticas se concentram em três eixos:
• Dependência do capital privado
ONGs como o Greenpeace alertam que o modelo pode priorizar o retorno financeiro dos investidores, reduzindo a fatia destinada à proteção direta da floresta.
• Riscos de desigualdade na distribuição dos recursos
Há receio de que países desenvolvidos ― responsáveis pelos aportes iniciais ― ocupem posições dominantes na governança do fundo, influenciando decisões e impondo condições que não beneficiem plenamente as nações tropicais.
• Falta de salvaguardas robustas
Entidades pedem regras mais rígidas para garantir que o dinheiro não financie setores historicamente ligados a impactos ambientais, como agronegócio associado a desmatamento, mineração e exploração madeireira industrial.
Outro ponto sensível é a necessidade de mecanismos claros que assegurem acesso direto aos recursos por comunidades indígenas e populações tradicionais, evitando que os valores fiquem presos em estruturas intermediárias ou burocráticas.
5. Por que o TFFF é importante para o Brasil e para a COP30?
O TFFF é uma das principais apostas diplomáticas do Brasil para a COP30. Ao defender que a proteção das florestas tropicais beneficia toda a humanidade, o país busca consolidar a ideia de que manter a Amazônia e outros biomas em pé deve ser considerado um serviço ambiental global ― e, portanto, remunerado.
A estratégia reforça o argumento histórico de que nações desenvolvidas, maiores responsáveis pelas emissões acumuladas de gases de efeito estufa, precisam financiar políticas de conservação nos países do Sul Global.
Para o governo brasileiro, o fundo representa uma mudança de paradigma: deixar de tratar a floresta como obstáculo ao desenvolvimento e transformá-la em um ativo econômico permanente, capaz de gerar receita contínua e sustentável. ver Palmeiras goleia LDU por 4-0 e vai à final da Libertadores contra o Flamengo



