Tecnologia: robôs ‘fofinhos’ dão conforto a idosos na Coreia do Sul

Tecnologia: robôs ‘fofinhos’ dão conforto a idosos na Coreia do Sul

🕓 Última atualização em: 01/12/2025 às 10:13

Com visual infantil e tecnologia avançada, novos companheiros robóticos têm se destacado como uma alternativa inovadora para enfrentar o isolamento social e a depressão entre idosos na Coreia do Sul. A Hyodol, empresa que desenvolve soluções de saúde e casas inteligentes, criou um robô com inteligência artificial que vem chamando atenção por seu impacto positivo. Com aparência de boneca e comportamento semelhante ao de uma criança, o dispositivo foi pensado para acompanhar idosos que vivem sozinhos — um grupo que cresce rapidamente no país.

Crise de saúde mental entre idosos se agrava

Segundo um relatório divulgado em junho de 2025 no Journal of the Korean Medical Association, cerca de 10 idosos cometem suicídio diariamente na Coreia do Sul. O índice é um dos mais altos entre países desenvolvidos e reflete uma crise que também atinge outras regiões do Leste Asiático, como Japão e Hong Kong.

A Coreia do Sul vive hoje a realidade de uma sociedade “super-envelhecida”, com mais de 10 milhões de pessoas acima de 65 anos. “O envelhecimento ocorreu tão rapidamente que o governo não conseguiu estruturar uma rede de suporte adequada”, explica Othelia E. Lee, professora da Universidade da Carolina do Norte e especialista em isolamento social entre idosos coreanos.

O tradicional modelo de famílias multigeracionais perdeu força nas últimas décadas. Como resultado, um terço dos idosos mora sozinho, enfrentando solidão, dificuldades financeiras e o sentimento de ser um peso — fatores intimamente ligados ao aumento da depressão e do suicídio.

Tecnologia entra em cena para suprir lacunas do cuidado

Com o sistema público de saúde sobrecarregado e falta de mão de obra em serviços sociais, o governo sul-coreano tem investido em parcerias com empresas de tecnologia. Entre elas está a Hyodol, criadora de um robô que funciona como acompanhante, monitor e fonte de interação diária.

O aparelho, conectado a um aplicativo mobile, envia lembretes de medicamentos, alertas de emergência e permite que cuidadores acompanhem à distância a rotina do idoso, registrando horários de refeições, atividades e outras informações importantes.

No entanto, o que mais chama atenção é o aspecto emocional: o robô conversa, canta, propõe exercícios cognitivos e cumprimenta o idoso ao chegar em casa com frases como: “Vovó/Vovô, senti sua falta o dia inteiro.”

A força do “fator fofura”

Com entre 38 e 50 centímetros de altura, corpo macio e rosto amigável, o robô foi pensado para ser abraçado. A CEO da empresa, Jihee Kim, afirma que a estética infantil não é apenas uma escolha de design, mas parte fundamental do vínculo criado com os usuários.

“A aparência acolhedora facilita a interação e ajuda a construir confiança, principalmente entre idosos com pouca familiaridade tecnológica”, diz Kim.

Até novembro de 2025, mais de 12 mil unidades foram distribuídas por programas sociais e governamentais, enquanto cerca de mil famílias compraram o robô diretamente — o modelo mais recente custa aproximadamente 1,3 milhão de wons (cerca de R$ 4.700).

Assistentes sociais relatam resultados expressivos. Uma delas, que pediu anonimato, conta que uma idosa sob seus cuidados, antes de receber o robô, vivia em profundo estado depressivo e cogitava o suicídio. Após a chegada do Hyodol, ela demonstrou melhora significativa no humor e na sensação de companhia.

Estudos reforçam esses relatos: uma pesquisa realizada em 2024 envolvendo 69 idosos mostrou redução da depressão e melhora cognitiva após seis semanas de uso.

Debates éticos e limitações

Apesar dos resultados positivos, especialistas alertam para possíveis efeitos colaterais — entre eles, a dependência emocional e a infantilização dos usuários. Em um caso relatado pela empresa, uma idosa chegou a dar ao robô o nome da filha falecida e praticamente abandonou interações sociais para passar o dia ao lado do dispositivo.

“Não é uma solução para todos”, admite Kim. A empresa afirma que o produto tende a ter melhor aceitação entre idosos mais fragilizados, geralmente acima de 80 anos, e menos entre aqueles mais ativos ou independentes.

A discussão ética se amplia para temas como privacidade de dados, consentimento e limites da interação humano–máquina. A Hyodol diz que os dados são anonimizados e que gravações de voz são usadas apenas para aperfeiçoamento interno.

Alternativas não humanizadas também fazem sucesso

Enquanto a Coreia do Sul aposta em robôs com aparência infantil, o Japão segue o caminho oposto. Um dos exemplos mais conhecidos é o PARO, uma foca robô terapêutica desenvolvida para oferecer conforto sem simular características humanas.

Seu criador, o pesquisador Takanori Shibata, afirma que o formato de “animal de estimação” reduz preocupações com privacidade e já apresentou resultados positivos em idosos com demência, veteranos com TEPT e crianças com transtornos do desenvolvimento.

Atualmente, o PARO está presente em mais de 30 países.

Um mercado em rápida expansão

O uso de robôs companheiros tende a se tornar cada vez mais comum. Estimativas apontam que o setor global de robôs para cuidados com idosos deve atingir US$ 7,7 bilhões até 2030.

A Hyodol, por sua vez, já trabalha na adaptação de sua tecnologia para diferentes culturas e planeja expandir internacionalmente a partir de 2026.

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