OMS classifica herbicidas usados no Brasil como cancerígenos

OMS classifica herbicidas usados no Brasil como cancerígenos

🕓 Última atualização em: 02/12/2025 às 09:02

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou uma nova revisão científica que reacende o debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil. O órgão reclassificou dois herbicidas amplamente aplicados em lavouras brasileiras — atrazina e alachlor — como substâncias cancerígenas para humanos, com base em estudos de laboratório, evidências biológicas e associações observadas em pesquisas epidemiológicas.

Segundo especialistas, a decisão reforça preocupações já existentes sobre os impactos do uso intensivo desses produtos no país. Hoje, sete dos dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia, cenário que se agravou ao longo da última década. Para a pesquisadora brasileira Larissa Bombardi, coordenadora científica da International Pesticide Standard Alliance (IPSA), esse descompasso regulatório pode influenciar inclusive as negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia, previsto para ser concluído em 20 de dezembro.

Risco ao acordo Mercosul–UE

Bombardi lembra que o uso da atrazina — um dos herbicidas mais consumidos no país — é alvo de críticas ambientais e sanitárias na Europa. Segundo ela, a manutenção de agrotóxicos proibidos no bloco europeu representa um obstáculo importante para o avanço do acordo comercial.

A pesquisadora também destaca que, nesta terça-feira, está prevista em Bruxelas uma manifestação que pede o fim da exportação, pela União Europeia, de pesticidas que não são permitidos dentro do próprio bloco. O tema ganha força entre agricultores europeus, que alegam concorrência desleal quando países parceiros utilizam substâncias banidas no continente.

O que diz a nova classificação da IARC

A atualização publicada no The Lancet Oncology reúne análises de 22 cientistas de 12 países. As conclusões apontam:

  • Atrazina (herbicida): associada ao aumento do risco de linfoma não Hodgkin com alteração cromossômica.
  • Alachlor (herbicida): apresentou relação dose–resposta com câncer de laringe em estudo com aplicadores de pesticidas.
  • Vinclozolin (fungicida): classificado como possivelmente cancerígeno (Grupo 2B).

A IARC identificou mecanismos consistentes de ação carcinogênica, incluindo estresse oxidativo, inflamação, imunossupressão e alterações hormonais.

“Sinais preocupantes em humanos”, alerta oncologista

O oncologista Daniel Musse, integrante de sociedades científicas do Brasil, dos EUA e da Europa, destaca que a inclusão de substâncias no Grupo 2A indica forte evidência de risco:

“A classificação significa que há suporte experimental robusto e sinais claros em humanos. Essas informações precisam influenciar políticas públicas e estratégias de proteção, sobretudo para trabalhadores rurais”, afirma.

Os trabalhadores da agricultura e da indústria química são os mais expostos, seja por inalação ou contato direto. Já na população em geral, o risco maior está na água contaminada e em alimentos com resíduos acima dos limites seguros.

Uso cresce e ameaça a biodiversidade da Amazônia

Bombardi ressalta ainda que o consumo de atrazina aumentou 535% na região Norte nos últimos dez anos, o que representa um forte risco ambiental, especialmente por sua rápida dispersão em cursos d’água. Estudos também relacionam o herbicida a infertilidade animal e a problemas reprodutivos em várias espécies.

Além do câncer, pesquisas citadas pela especialista associam a substância a distúrbios hormonais, doenças neurodegenerativas e malformações congênitas.

Pressão por revisão nas normas brasileiras

Com a reclassificação da OMS, cresce a expectativa de que agências reguladoras de diversos países — incluindo o Brasil — revisem as regras de uso, limites de resíduos e diretrizes de monitoramento.

O relatório completo da IARC será publicado no Volume 140 das Monografias, previsto para 2026, com análises detalhadas dos mecanismos tumorais e das pesquisas que embasaram a atualização.

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