A iniciativa “Marcas da Enfermagem” expõe o aumento da violência contra enfermeiros, técnicos e auxiliares — especialmente mulheres da rede pública — e reforça a importância da valorização e proteção de quem cuida do país.
O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) lançou, nesta quarta-feira (5), a campanha “Marcas da Enfermagem”, uma ação nacional que tem como objetivo conscientizar a população e mobilizar o poder público contra a violência sofrida por profissionais da Enfermagem. O slogan da campanha — “Toda marca conta uma história. E a Enfermagem não pode mais carregar essas sozinha” — busca dar voz e visibilidade às agressões físicas e emocionais que marcam diariamente a rotina de milhares de enfermeiros, técnicos, auxiliares e obstetrizes no Brasil.
A campanha transforma essas marcas em símbolos de resistência, empatia e força coletiva. Em uma sociedade que depende diretamente do trabalho da Enfermagem para garantir assistência à saúde, o aumento dos casos de agressão se tornou um problema nacional, que exige resposta imediata.
O trabalho incansável da Enfermagem
Os profissionais de Enfermagem são a espinha dorsal dos serviços de saúde. Eles estão presentes em todos os níveis de atendimento: nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos hospitais, nas emergências e nas unidades de terapia intensiva. Além de executar procedimentos técnicos e prestar cuidados diretos aos pacientes, são responsáveis por orientar famílias, acompanhar tratamentos e zelar pela segurança do cuidado.
Apesar de seu papel essencial, esses profissionais enfrentam condições de trabalho cada vez mais difíceis, especialmente na rede pública. A sobrecarga, o número reduzido de funcionários e a pressão constante de pacientes e familiares tornam o ambiente propício a situações de estresse e, infelizmente, de violência.
A maioria da categoria é composta por mulheres — mais de 85% do total. Isso faz da Enfermagem um reflexo das desigualdades de gênero e das vulnerabilidades sociais. As agressões verbais, físicas e psicológicas atingem especialmente enfermeiras e técnicas, que muitas vezes são desrespeitadas no exercício de suas funções, expostas a ameaças, empurrões, insultos e até tentativas de agressão dentro de hospitais e postos de saúde.
Violência crescente e dados alarmantes
Pesquisas recentes apontam que oito em cada dez profissionais de Enfermagem já sofreram algum tipo de violência no ambiente de trabalho. A maioria relata agressões verbais — gritos, ofensas e humilhações —, mas também há casos de violência física, assédio moral e até sexual.
Em muitos estados, especialmente nas capitais e em hospitais de emergência, as ocorrências vêm aumentando. Nos serviços públicos, a situação é ainda mais crítica, devido ao alto volume de pacientes e à escassez de recursos humanos e materiais. O resultado é uma combinação perigosa: sobrecarga, cansaço e exposição constante à agressividade de usuários e acompanhantes.
Para o presidente do Cofen, Manoel Neri, a campanha “Marcas da Enfermagem” é um chamado à sociedade e às autoridades. Ele destaca que o Conselho luta pela aprovação do Projeto de Lei 6.749/2016, que prevê o aumento das penas para crimes cometidos contra profissionais de saúde. A proposta busca proteger quem está na linha de frente e sofre diariamente com situações que ferem sua integridade e dignidade.
Impacto na saúde mental
Os efeitos da violência vão além das marcas físicas. Profissionais relatam sintomas de ansiedade, insônia, irritabilidade e medo de retornar ao trabalho após sofrerem agressões. O estresse constante pode levar ao esgotamento emocional e ao desenvolvimento de transtornos como depressão e estresse pós-traumático.
De acordo com especialistas em saúde mental, cada episódio de violência desencadeia um ciclo de sofrimento. O profissional passa a associar o ambiente de trabalho a medo e insegurança, o que afeta diretamente sua qualidade de vida e sua capacidade de prestar assistência de forma humanizada.
A violência contra a Enfermagem também repercute na qualidade do atendimento prestado à população. Equipes desmotivadas e com medo tendem a se afastar emocionalmente do cuidado, reduzindo a empatia e comprometendo o vínculo com os pacientes. ver Polícia Civil de SP deflagra nova fase de operação contra venda de bebidas alcoólicas falsificadas.
Mobilização nacional
Durante o lançamento da campanha, o Cofen anunciou uma ação especial em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Mensagens da campanha serão exibidas em painéis de LED durante partidas do Campeonato Brasileiro, com o objetivo de alcançar milhões de espectadores e levar o debate sobre a violência além das paredes dos hospitais.
A mobilização busca sensibilizar toda a sociedade para o problema. Segundo o Cofen, o combate à violência exige medidas conjuntas: investimento em segurança, protocolos de acolhimento às vítimas, campanhas de educação em saúde e valorização profissional.
Um chamado à empatia e à valorização
O Conselho Federal de Enfermagem reforça que nenhum profissional deve ser agredido por cumprir seu dever. É preciso reconhecer que, por trás de cada uniforme, há pessoas dedicadas, cansadas e, muitas vezes, emocionalmente fragilizadas por cuidar em meio ao caos.
A campanha “Marcas da Enfermagem” representa mais do que uma denúncia — é um convite à empatia. O país precisa entender que proteger os profissionais de Enfermagem é também proteger a qualidade da saúde pública.
A violência não pode ser naturalizada nem silenciada. Cada agressão é uma ferida aberta na dignidade de quem dedica a vida a cuidar do outro. É hora de transformar as marcas da dor em símbolos de respeito, valorização e esperança para toda a categoria.
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