Completar 35 anos de atuação vai além de uma celebração simbólica para a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT). O marco histórico serve, sobretudo, como um ponto de análise crítica sobre a evolução da diálise no Brasil e os obstáculos que seguem comprometendo a sustentabilidade de um serviço essencial à vida de milhares de pacientes.
O ano de 2025 sintetizou com clareza essa realidade. Embora altamente regulado e tecnicamente complexo, o setor de diálise permanece submetido a um modelo de financiamento que não acompanha os custos reais da terapia, colocando clínicas e pacientes em situação de vulnerabilidade crescente.
ABCDT amplia papel institucional no debate da saúde renal

Ao longo de mais de três décadas, a ABCDT deixou de atuar apenas como representante das clínicas de diálise para se consolidar como uma interlocutora relevante nas discussões sobre políticas públicas de saúde renal. Esse amadurecimento institucional ficou evidente em 2025, com presença constante da entidade em debates nas esferas municipal, estadual e federal.
A atuação envolveu tanto a construção de propostas técnicas quanto a exposição responsável de riscos concretos à continuidade da assistência, reforçando a importância do diálogo permanente com gestores públicos e órgãos de controle.
Atrasos de pagamento e risco de fechamento de clínicas marcaram o início de 2025
O ano começou com alertas preocupantes. Atrasos nos repasses por parte de gestores públicos, ameaça de encerramento das atividades de clínicas em diferentes estados e desigualdades regionais no financiamento da terapia renal substitutiva evidenciaram um problema estrutural: a defasagem entre o custo real da diálise e os valores pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Em alguns estados, a mobilização institucional evitou um colapso maior, seja por meio de complementação de recursos, seja por decisões judiciais que garantiram condições mínimas para a manutenção dos atendimentos.
Produção de estudos fortaleceu o debate técnico e político
Mais do que reagir às crises, 2025 também foi marcado pela produção de evidências. Em parceria com a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), a ABCDT divulgou estudos técnicos que comprovaram a defasagem histórica da Tabela SUS aplicada à diálise.
Esses dados qualificaram o debate público e ampliaram a interlocução com o Congresso Nacional, o Ministério da Saúde e outras instâncias institucionais, fortalecendo a defesa por mudanças estruturais no financiamento do setor.
Saúde renal ganha espaço na agenda institucional, mas desafios persistem
A intensificação do diálogo com a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços de Saúde, a participação em audiências públicas e reuniões técnicas e a inclusão da diálise em programas estratégicos do Ministério da Saúde representaram avanços importantes em 2025.
Apesar disso, a visibilidade conquistada ainda se mostrou insuficiente diante da urgência do problema e da crescente pressão financeira enfrentada pelas clínicas.
Crise da diálise ganha dimensão nacional no segundo semestre

No segundo semestre de 2025, a crise da diálise alcançou repercussão nacional. Restrições à admissão de novos pacientes, risco de interrupção de tratamentos e aumento da instabilidade financeira expuseram um sistema operando no limite.
Campanhas como “Diálise é Direito. Reajuste é Dever” e “Viver é Urgente – A Diálise Não Pode Esperar” traduziram para a sociedade aquilo que os dados técnicos já indicavam: sem financiamento adequado, a continuidade da assistência fica comprometida.
Aos 35 anos, a reflexão se impõe. A diálise não pode seguir sendo tratada como uma política emergencial, acionada apenas em momentos críticos. Trata-se de uma terapia vital, contínua e previsível em termos de demanda, que depende de planejamento, investimento estável e articulação constante entre o poder público e os prestadores de serviço.
Sustentabilidade do setor depende de mudanças estruturais
A trajetória da ABCDT demonstra que a mobilização técnica e institucional é capaz de produzir avanços. No entanto, os desafios atuais exigem um novo patamar de compromisso. O reajuste da Tabela SUS, o cofinanciamento estadual, a segurança jurídica e a previsibilidade econômica não são demandas corporativas, mas condições essenciais para garantir o acesso contínuo e digno à diálise no Brasil.
Em 2025, a entidade reafirmou esse compromisso. A atuação seguirá baseada em dados, diálogo e posicionamento firme, com um objetivo claro: assegurar que a diálise seja reconhecida como um direito fundamental e sustentado por um modelo viável a longo prazo.



