Bashar al-Assad, que comandou a Síria por mais de 20 anos, deixou o poder no fim de 2024 e passou a viver na Rússia. O ex-presidente sírio, conhecido por governar com autoritarismo, tornou-se alvo da Justiça de seu próprio país após a intensificação dos conflitos armados e o avanço de grupos rebeldes sobre Damasco.
Médico oftalmologista de formação, Assad viu sua trajetória política chegar a um ponto crítico em menos de um ano, passando da chefia do Estado ao exílio sob proteção do governo russo.
Bashar al-Assad assumiu a presidência da Síria em julho de 2000, após a morte de seu pai, Hafez al-Assad, que governou o país de forma contínua desde 1971. Inicialmente, Bashar não era o herdeiro político natural da família.
Ascensão inesperada ao poder
O caminho até o Palácio Presidencial se abriu após a morte de seu irmão mais velho, Bassel al-Assad, em um acidente de carro, em 1994. Até então, Bashar mantinha carreira médica e pouca atuação política.
Com a mudança na linha sucessória, passou a ser preparado para assumir o comando do país, consolidando um regime marcado por forte centralização de poder e repressão a opositores.
Em 2011, a Síria mergulhou em uma guerra civil após protestos populares inspirados pela Primavera Árabe. As manifestações pediam reformas políticas, ampliação de liberdades civis e o fim do regime autoritário.
Estopim dos conflitos
Os protestos tiveram início na província de Daraa, após a prisão de estudantes que picharam mensagens contrárias ao governo. A repressão violenta às manifestações acabou ampliando o conflito, que se estendeu por mais de 13 anos e envolveu forças governamentais, grupos de oposição, organizações terroristas e potências estrangeiras.
Desde setembro de 2025, Bashar al-Assad é alvo de um mandado de prisão emitido por um tribunal de Damasco. Ele é acusado de crimes como homicídio premeditado, tortura, incitação à violência e tentativa de homicídio, relacionados principalmente aos eventos ocorridos no início da guerra civil.
A fuga da Síria e o exílio na Rússia
O mandado de prisão contra Assad nunca foi cumprido. Em 8 de dezembro de 2024, o ex-presidente deixou o país horas antes de forças rebeldes, lideradas pelo grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), chegarem à capital síria.
As primeiras informações sobre a saída de Assad foram divulgadas pelo governo russo. Moscou afirmou que o então presidente sírio decidiu renunciar ao cargo e orientou uma transição de poder pacífica.
Dias depois, uma carta atribuída a Bashar al-Assad foi publicada nos canais oficiais da antiga Presidência da Síria. No texto, ele afirma que foi levado com a família para a base aérea russa de Hmeimim, na província de Latakia, enquanto os rebeldes avançavam sobre Damasco.
Segundo Assad, a evacuação ocorreu a pedido de autoridades russas, após ataques contra instalações militares da Rússia em território sírio. O ex-presidente nega ter solicitado asilo e afirma que deixou o país apenas quando a situação se tornou irreversível.
Divergências sobre o papel da Rússia
A versão apresentada por Assad é contestada pelo atual líder sírio, Ahmed al-Sharaa. Em entrevista concedida meses depois, ele declarou que Moscou teria fechado um acordo para abandonar Assad antes da queda definitiva de Damasco.
Segundo al-Sharaa, a decisão teria sido tomada durante o avanço rebelde sobre a cidade de Hama, onde tropas russas atuavam. O Kremlin nunca confirmou oficialmente essa versão.
A localização exata de Assad não é oficialmente divulgada. Relatos indicam que ele vive em Moscou, sob vigilância constante de forças de segurança russas, em um endereço mantido em sigilo.
Em setembro de 2025, o nome de Bashar al-Assad voltou ao noticiário internacional após informações divulgadas pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR).
Internação e versão oficial
Segundo o relatório, o ex-presidente teria sido internado em estado grave após um suposto envenenamento ocorrido em sua residência. Ele teria permanecido em uma unidade de terapia intensiva por cerca de nove dias, recebendo alta após estabilização do quadro clínico.
O governo russo permaneceu em silêncio por semanas. Posteriormente, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, negou qualquer tentativa de envenenamento e afirmou que Assad recebeu asilo humanitário exclusivamente por razões de segurança.
Lavrov declarou ainda que a permanência do ex-líder sírio na Rússia busca evitar um desfecho violento semelhante ao de Muammar Gaddafi, ex-presidente da Líbia morto em 2011 após ser capturado por rebeldes.



