El Salvador inspira debate: modelo de Bukele serviria ao Brasil?

El Salvador inspira debate: modelo de Bukele serviria ao Brasil?

🕓 Última atualização em: 08/12/2025 às 08:21

A popularidade do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, segue em alta desde a reeleição em 2024, impulsionada principalmente por sua atuação rígida no combate ao crime organizado. Segundo pesquisa do Instituto Universitario de Opinión Pública, divulgada em junho, Bukele recebeu nota média de 8,15 da população — índice superior ao aval dado à sua gestão, avaliada em 7,85.

O tema segurança pública é o ponto mais forte de apoio ao governo: 75% dos salvadorenhos afirmam que este é o setor em que o presidente mais se destaca. No entanto, o mesmo levantamento aponta desgaste em áreas como habitação, economia, administração municipal e direitos humanos.


Alta aprovação, métodos rígidos e críticas internacionais

A política de segurança de Bukele ganhou repercussão mundial por adotar medidas de combate direto às maras — facções que comandavam extorsão, homicídios e tráfico no país. Desde então, El Salvador deixou o posto de um dos locais mais violentos do mundo e passou a ser citado como referência de redução de homicídios na América Latina.

Por outro lado, organizações de direitos humanos denunciam abusos, prisões arbitrárias e uso excessivo de força sob o regime de exceção que vigora desde 2022. A construção do Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), megacomplexo penitenciário inaugurado em 2023, se tornou símbolo dessa política — exaltada por apoiadores e criticada por entidades internacionais.

A Anistia Internacional afirma que o modelo substituiu a violência das gangues pela violência estatal. Estima-se que quase 90 mil pessoas foram presas em pouco mais de dois anos, muitas sem direito amplo de defesa.


Inspirando governos no exterior — inclusive no Brasil

O sucesso do governo salvadorenho tem atraído olhares de líderes conservadores em vários países. No Brasil, o tema ganhou força após a operação policial no Rio de Janeiro em outubro, que deixou 121 mortos e elevou a aprovação do governador Claudio Castro (PL) para 47% entre cariocas, segundo a AtlasIntel.

Entre os mais entusiastas está Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais, que visitou o país em 2025 e publicou vídeos defendendo um sistema semelhante ao CECOT no Brasil — idealmente construído na Amazônia e destinado a presos ligados a facções, classificados como terroristas.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também esteve no país e divulgou entrevistas com o ministro da Segurança salvadorenho, Gustavo Villatoro, que apresentou dados sobre queda drástica nos índices de violência. Já Nikolas Ferreira (PL-MG) participou de fórum de segurança em San Salvador, onde reforçou a importância da classificação de facções criminosas como organizações terroristas.


É possível aplicar o modelo no Brasil? Especialistas dizem que não é simples

Apesar do interesse político, analistas afirmam que repetir o método salvadorenho em território brasileiro seria um desafio complexo.

Para Michał Stelmach, pesquisador da Universidade de Łódź, o êxito de Bukele depende de fatores difíceis de replicar. El Salvador é territorialmente pequeno, tem população reduzida e conta com maior controle estatal sobre forças de segurança. No Brasil, ao contrário, o crime organizado possui estrutura mais robusta, poder armamentista elevado e presença consolidada nas grandes cidades.

Além disso, a Constituição brasileira impõe limites mais rígidos à suspensão de direitos civis, e operações de larga escala tendem a gerar forte reação judicial e social.

O pesquisador Roberth Muggah, do Instituto Igarapé, avalia que ações duras podem resultar em ganhos imediatos de popularidade, mas não necessariamente em estabilidade a longo prazo. “O Brasil poderia aprender com a coordenação e presença do Estado, mas aplicar o modelo Bukele integralmente poderia colapsar o sistema prisional e deslocar a violência para outras regiões”, afirma.


A pesquisadora argentina Lucrecia Molinari lembra que, apesar do apoio massivo à repressão ao crime, outras áreas do governo salvadorenho começam a provocar alerta. O país enfrenta aumento da pobreza extrema e insegurança alimentar, e a economia já aparece como nova prioridade para parte dos cidadãos — tendência que pode crescer à medida que a violência diminui.


O modelo de Nayib Bukele transformou El Salvador e projetou o presidente como referência mundial em combate ao crime. Contudo, especialistas apontam que aplicar a mesma estratégia em países maiores e com facções mais estruturadas, como o Brasil, exigiria mudanças constitucionais profundas, alto custo social e risco de violações de direitos humanos.

A segurança pública brasileira é frequentemente retratada por especialistas como um sistema desconectado, de resposta lenta e pouco coordenado entre suas forças, mesmo com avanços em algumas áreas. A avaliação do cenário atual se apoia em diversos fatores que ajudam a explicar os principais desafios enfrentados hoje no país.


2.1 Prioridade na repressão em vez da prevenção

Analistas destacam que o Brasil ainda direciona grande parte dos esforços para ações repressivas, como patrulhamento ostensivo e operações policiais, enquanto políticas preventivas recebem menor investimento. Programas de educação, inclusão social, melhoria urbana e ações voltadas à juventude avançam mais lentamente.

A crítica recorrente é que o foco no combate imediato ao crime não reduz as causas que alimentam a violência.


2.2. Estrutura policial dividida é um entrave

O modelo brasileiro opera com duas polícias distintas:

Polícia MilitarPolícia Civil
atua no patrulhamento e prevençãoresponsável pela investigação e produção de provas

A falta de integração entre as corporações é apontada como um dos maiores obstáculos para a eficiência das operações.

Especialistas defendem maior articulação, compartilhamento de dados e, em alguns casos, até a unificação das forças policiais.


2.3. Falta de investimento em inteligência investigativa

Mesmo com ganhos importantes em tecnologias de monitoramento e uso crescente de câmeras corporais, o país ainda avança pouco na área de inteligência. Entre os desafios estão:

  • análise e cruzamento de dados,
  • monitoramento de organizações criminosas,
  • planejamento de estratégias de longo prazo.

Para analistas, vencer o crime organizado exige inteligência e planejamento — não apenas força armada.


2.4. Sistema prisional como combustível para o crime

O ambiente carcerário brasileiro é apontado como um dos principais agravantes do problema. A superlotação e a presença de facções tornam os presídios centros de recrutamento e expansão criminosa.

  • baixa taxa de ressocialização,
  • domínio de organizações dentro das unidades,
  • falta de estrutura e políticas de reintegração.

Especialistas consideram que sem reforma profunda do sistema penitenciário, a violência continuará se reproduzindo.


2.5. Crescimento do crime organizado e do tráfico

Grupos como PCC, Comando Vermelho e milícias ampliaram suas operações dentro e fora do país. Em regiões vulneráveis, a presença do Estado é limitada, o que fortalece essas organizações.

Muitos especialistas defendem que ações policiais devem ser acompanhadas de políticas sociais permanentes.


Embora alguns estados apresentem queda nos índices de homicídios, o Brasil permanece entre as nações com maior número de mortes violentas no mundo. A variação frequente nas estatísticas indica que os avanços ainda não são contínuos ou estruturais.


Conclusão

O consenso entre pesquisadores é claro: o Brasil teve progressos, mas o modelo atual ainda carece de integração, investimento em inteligência, prevenção e reforma do sistema prisional. Sem mudanças profundas, a violência tende a se manter instável e recorrente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *