Mercado de suplementos tem 65% de reprovação em testes da Anvisa

Mercado de suplementos tem 65% de reprovação em testes da Anvisa

🕓 Última atualização em: 29/11/2025 às 07:17

Um levantamento recente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revela um cenário preocupante no mercado de suplementos alimentares no Brasil. Segundo a agência, cerca de 65% dos produtos avaliados até julho de 2025 apresentaram algum tipo de irregularidade, desde falhas na composição até ausência de testes essenciais para garantir a segurança do consumidor.

Essas inconformidades envolvem uso de ingredientes proibidos, doses acima do permitido, rótulos com informações enganosas e falta de estudos que comprovem a estabilidade e a pureza dos suplementos. Mesmo com a alta taxa de reprovação, a Anvisa decidiu estender até 2026 o prazo para que as empresas se adequem às normas previstas inicialmente para este ano.

Mercado bilionário e fiscalização insuficiente

Impulsionado pela busca crescente por performance, estética e bem-estar, o setor de suplementos quase triplicou de tamanho na última década, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD). Apesar do crescimento, a fiscalização não acompanhou o ritmo da expansão.

Entre 2020 e 2025, 63% das investigações sanitárias da Anvisa relacionadas a alimentos envolveram suplementos, o maior índice entre todos os setores supervisionados. Muitas das irregularidades identificadas dizem respeito à ausência de estudos de estabilidade — que garantem que o produto mantém suas propriedades até o fim da validade — e à presença de substâncias não permitidas.

Nos últimos anos, marcas como Insuzin e Prostnar chegaram a ser proibidas após a detecção de ingredientes não declarados e potencialmente perigosos.

A falta de clareza sobre o que é alimento e o que se aproxima de medicamento agrava o risco ao consumidor. “O setor opera em uma espécie de zona cinzenta”, afirma Juliana Pereira, presidente do Instituto IPS Consumo.

Especialistas alertam: suplementação sem orientação pode causar intoxicação

Endocrinologistas e nutricionistas reforçam que a popularização da suplementação sem acompanhamento médico aumenta o risco de efeitos colaterais graves. Vitaminas manipuladas, proteínas, termogênicos e outros produtos vendidos como “naturais” podem sobrecarregar órgãos e provocar danos ao fígado, rins, coração e sistema hormonal.

O mito de que suplemento é sempre seguro é perigoso”, destaca a endocrinologista Geórgia Castro, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Segundo ela, o excesso de vitaminas lipossolúveis — como A, D e E — pode causar toxicidade, enquanto estimulantes não declarados podem desencadear arritmias, ansiedade e elevação da pressão arterial.

Casos de pacientes que usam vários produtos simultaneamente, muitos comprados pela internet ou em academias, são frequentes nos consultórios. “Sem orientação, o risco de intoxicação hepática e problemas cardiovasculares aumenta muito”, alerta Castro.

A nutricionista Juliana Crivellaro, especialista em nutrição esportiva, reforça que não existe ganho de desempenho quando a suplementação é feita sem critério. “Virou moda, e muitas decisões são baseadas no marketing, não na ciência.”

Consumidora relata efeitos adversos severos

A comunicadora Priscila* que sofreu uma forte reação após ingerir um suplemento anunciado como emagrecedor natural. O produto prometia reduzir até 16 quilos em um mês e trazia ingredientes aparentemente inofensivos no rótulo.

“Em poucos minutos comecei a suar, tive taquicardia e tontura. Minha pupila dilatou. Achei que fosse desmaiar”, relatou. Ela não conseguiu se alimentar por dois dias. O produto não tinha aprovação da Anvisa.

*Nome alterado a pedido da entrevistada.

Como verificar se um suplemento é regularizado

A médica nutróloga Danielli Orletti, do Instituto Orletti, orienta consumidores a adotarem alguns cuidados antes de comprar suplementos:

  • Conferir o número de notificação da Anvisa no rótulo (obrigatório para lançamentos desde 2024).
  • Desconfiar de promessas milagrosas, como emagrecimento rápido ou cura de doenças.
  • Checar o CNPJ e o fabricante.
  • Pesquisar o produto no portal da Anvisa.
  • Comprar apenas em estabelecimentos confiáveis, sempre com nota fiscal.

O que diz a Anvisa

A agência afirma que a prorrogação do prazo para adequação — agora até setembro de 2026 — não suspende a fiscalização. Segundo o órgão, o setor ainda enfrenta desafios técnicos e capacidade limitada de laboratórios, mas as inspeções continuam acontecendo.

A Anvisa reforça que novos suplementos lançados a partir de 2024 já devem seguir regras rígidas de composição, rotulagem e estabilidade. A orientação ao consumidor é clara: desconfie de qualquer rótulo que prometa resultados rápidos ou efeitos terapêuticos.

Indústria e setor farmacêutico reagem

A ABIAD afirma que suas empresas associadas seguem as normas e defendem estabilidade regulatória para evitar disparidades no mercado. Para o setor farmacêutico, a demora prejudica a concorrência.

“A atual indefinição favorece quem não cumpre a lei e penaliza quem investe em qualidade”, criticou Adriana Diaféria, vice-presidente do Grupo FarmaBrasil.

Vendas online aumentam risco de falsificação

A Anvisa e o IPS Consumo alertam que plataformas de venda online são hoje um dos principais canais de distribuição de suplementos falsificados. Embalagens idênticas às originais dificultam a identificação.

O consumidor acha que está comprando algo regular, mas recebe um produto sem procedência. E a punição é praticamente inviável”, comenta Juliana Pereira.

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