Aos 33 anos, a psicóloga gaúcha Jéssica Mras tomou uma decisão incomum e difícil: retirar preventivamente as duas mamas mesmo sem apresentar diagnóstico de câncer ou alterações em exames clínicos. A escolha veio após a confirmação de uma mutação no gene BRCA2, associada a um risco elevado de desenvolvimento de câncer de mama ao longo da vida.
A cirurgia, conhecida como mastectomia bilateral redutora de risco, foi o resultado de um processo longo, que envolveu histórico familiar de câncer, acompanhamento médico especializado e meses de reflexão sobre prevenção, limites da medicina e impactos físicos e emocionais da decisão.
Histórico familiar foi determinante para a escolha
A trajetória de Jéssica com o tema começou anos antes do diagnóstico genético. Em 2018, a avó morreu em decorrência de um câncer de pâncreas identificado em estágio avançado. Três anos depois, em
recebeu o diagnóstico de câncer de ovário, enfrentando um tratamento longo e complexo.
Durante o acompanhamento médico da mãe, surgiu a suspeita de predisposição hereditária. Um exame genético confirmou a presença da mutação no gene BRCA2, o que levou à recomendação de testagem em familiares de primeiro grau. Enquanto outros parentes tiveram resultado negativo, Jéssica recebeu o diagnóstico positivo.
Segundo ela, a notícia não provocou desespero imediato. “Foi mais uma sensação de responsabilidade. Eu precisava entender o risco e decidir como lidar com aquela informação”, relata.
O que são as mutações nos genes BRCA
Os genes BRCA1 e BRCA2 têm a função de reparar danos no DNA e impedir a proliferação de células com alterações genéticas. Quando sofrem mutações, esse mecanismo de proteção falha, aumentando a probabilidade de surgimento de tumores.
De acordo com especialistas, mulheres com mutação no BRCA2 podem ter até 45% de risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. Também há maior risco para câncer de ovário e, em menor escala, para tumores como o de pâncreas. Nos homens, a mutação está associada ao aumento do risco de câncer de próstata.
Apesar disso, os médicos reforçam que a mutação genética não representa uma sentença definitiva. Ela altera o risco e exige estratégias específicas de acompanhamento e prevenção.
Vigilância intensa ou cirurgia preventiva
Após o diagnóstico genético, Jéssica passou a ser acompanhada por um centro especializado em doenças da mama. Entre as opções apresentadas estavam a vigilância ativa, com exames frequentes e ressonâncias periódicas, e a cirurgia preventiva, com a retirada do tecido mamário.
A psicóloga optou pela mastectomia após considerar sua experiência familiar. “Se um dia eu tivesse câncer, provavelmente passaria pela mesma cirurgia. Preferi enfrentar isso antes da doença”, explica. A decisão foi tomada após meses de consultas com mastologistas, oncologistas e cirurgiões plásticos, com orientações detalhadas sobre riscos, benefícios e limitações do procedimento.
A mastectomia redutora de risco diminui de forma expressiva a probabilidade de câncer de mama, mas não elimina o risco por completo, já que pequenas quantidades de tecido mamário podem permanecer no corpo.
Mesmo assim, especialistas consideram o procedimento uma das estratégias mais eficazes para mulheres com mutações de alto risco, desde que a decisão seja individualizada e bem informada.
Pós-operatório foi mais difícil do que o esperado
A cirurgia foi realizada em agosto de 2024, com preservação dos mamilos, técnica considerada segura quando não há sinais de doença na região. O período de recuperação, porém, foi mais desafiador do que Jéssica imaginava.
Ela relata limitações severas nos primeiros dias, com dificuldade para realizar atividades básicas e dores constantes. O impacto emocional também foi intenso ao se ver no espelho pela primeira vez, diante de cicatrizes extensas e de um corpo que não reconhecia.
A reconstrução mamária não foi imediata. Inicialmente, foram colocados expansores para preparar a pele antes da inserção das próteses definitivas, prolongando o processo por meses.
Exame revelou alterações pré-cancerígenas
Após a cirurgia, o tecido retirado passou por análise anatomopatológica. O resultado trouxe um dado inesperado: a presença de células atípicas, consideradas um estágio pré-cancerígeno.
Segundo os médicos, a cirurgia ocorreu em um momento decisivo. Caso tivesse esperado mais tempo, Jéssica poderia ter enfrentado o mesmo procedimento associado a um tratamento oncológico.
O achado não tornou a experiência mais simples, mas reforçou a percepção de que a decisão teve impacto direto na prevenção da doença.
Outras decisões ainda fazem parte do futuro
A mutação no BRCA2 também aumenta o risco de câncer de ovário, o que levanta a possibilidade de retirada preventiva dos ovários no futuro. Esse tipo de cirurgia, no entanto, envolve consequências importantes, como menopausa precoce e impactos sobre fertilidade e saúde cardiovascular.
No caso de Jéssica, os médicos indicaram que essa decisão pode ser avaliada cerca de dez anos antes da idade em que a mãe recebeu o diagnóstico. Até lá, ela seguirá em acompanhamento rigoroso.
A maternidade também se tornou um dilema. Existe 50% de chance de transmissão da mutação genética para os filhos. Entre as alternativas estão o congelamento de óvulos e o diagnóstico genético pré-implantacional, técnica que permite selecionar embriões sem a mutação.
Decidir antes da doença muda o percurso
Casos como o de Jéssica ganharam maior visibilidade após relatos públicos de outras mulheres que optaram pela cirurgia preventiva ao identificar mutações genéticas de alto risco.
Especialistas reforçam que a genética não define o destino, mas antecipa escolhas. Em alguns casos, agir antes do surgimento da doença pode alterar de forma significativa o percurso da vida e da saúde.
Para Jéssica, a decisão não encerrou o acompanhamento médico nem as reflexões sobre o futuro. “Não fiz a cirurgia para provar coragem. Fiz para continuar saudável. O medo, as dúvidas e as próximas decisões ainda fazem parte do caminho”, conclui.



