Mesmo sendo o maior produtor mundial de petróleo, os Estados Unidos demonstram forte interesse no petróleo venezuelano. A razão está menos no volume produzido internamente e mais nas características do petróleo extraído na Venezuela, além de fatores geopolíticos, econômicos e industriais que colocam o país sul-americano no centro das atenções de Washington.
Petróleo é base da economia venezuelana
A economia da Venezuela é historicamente dependente do setor petrolífero. Durante anos, o petróleo respondeu por cerca de 90% das receitas de exportação do país e sustentou financeiramente o governo de Nicolás Maduro, mesmo em meio a sanções internacionais e a uma prolongada crise econômica.
O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris, superando até mesmo a Arábia Saudita. Apesar desse potencial, a Venezuela representa hoje menos de 1% da produção global, um contraste significativo com a década de 1960, quando chegou a responder por mais de 10% do total mundial.
Colapso da indústria e papel da PDVSA
A queda da produção venezuelana começou ainda no fim dos anos 1990, intensificando-se durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. A estatal PDVSA foi afetada por má gestão, corrupção, interferência política e fuga de investimentos estrangeiros, fatores que comprometeram sua capacidade operacional.
Além disso, acidentes frequentes em refinarias e oleodutos agravaram o cenário, enquanto as sanções impostas pelos Estados Unidos, especialmente a partir de 2017, limitaram ainda mais o acesso da Venezuela a tecnologia, financiamento e mercados internacionais.
Atualmente, a produção gira em torno de 1 milhão de barris por dia, sustentada em parte por licenças concedidas pelos EUA a um número restrito de empresas estrangeiras.
Interesse das petrolíferas americanas
Ao longo do século 20, empresas dos Estados Unidos foram protagonistas no desenvolvimento da indústria petrolífera venezuelana. Esse vínculo foi rompido após a nacionalização do setor promovida por Hugo Chávez, que levou à saída de gigantes do petróleo, com exceção da Chevron.
Nos últimos anos, a Chevron recebeu autorizações específicas para operar e exportar petróleo venezuelano, primeiro durante o governo Joe Biden e, mais recentemente, sob a gestão de Donald Trump. A empresa é vista como peça-chave em uma eventual retomada dos investimentos americanos no país.
Trump também sinalizou interesse no retorno de outras gigantes do setor, como ExxonMobil e ConocoPhillips, cujos ativos foram expropriados no passado e que ainda mantêm disputas bilionárias contra o Estado venezuelano em tribunais internacionais.
Por que os EUA precisam do petróleo venezuelano
Embora os Estados Unidos liderem a produção global de petróleo, grande parte do que extraem é petróleo leve. Muitas refinarias americanas, especialmente no Golfo do México, foram projetadas para processar petróleo pesado, como o venezuelano.
Para manter essas refinarias operando de forma eficiente, os EUA continuam importando petróleo pesado de países como Canadá e México. O petróleo venezuelano, por suas características, se encaixa perfeitamente nesse perfil, reduzindo custos operacionais e fortalecendo a segurança energética americana.
Reequipar refinarias para processar exclusivamente petróleo leve exigiria investimentos bilionários e décadas de adaptação, o que torna o acesso ao petróleo pesado estrangeiro uma alternativa mais viável no curto e médio prazo.
Incertezas políticas, legais e de mercado
Apesar do interesse declarado, há diversas dúvidas sobre a viabilidade de um retorno em larga escala do petróleo venezuelano ao mercado americano. Questões jurídicas, a situação da governança da PDVSA, a necessidade de investimentos maciços em infraestrutura e a cooperação do futuro governo venezuelano ainda estão em aberto.
Além disso, o mercado global de petróleo enfrenta excesso de oferta e tendência de queda nos preços, o que pode reduzir o apetite por novos volumes no curto prazo.
Relação com a China
A China é atualmente o principal destino do petróleo venezuelano e mantém parcerias estratégicas com a PDVSA por meio da estatal CNPC. Mesmo assim, Pequim não ampliou significativamente seus investimentos no setor, limitando-se a joint ventures já existentes.
Esse cenário abre espaço para uma possível reaproximação entre Venezuela e Estados Unidos no setor energético, caso as condições políticas e econômicas permitam.


