Juiz de Fora já constava em relatórios técnicos como uma das cidades brasileiras com alto risco para deslizamentos e enchentes muito antes da recente tragédia que deixou dezenas de mortos e milhares de desabrigados na Zona da Mata mineira. Documentos produzidos desde 2017 pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais apontavam vulnerabilidades estruturais, ocupação de encostas e grande concentração de moradores em áreas suscetíveis a desastres climáticos.
Mesmo com os alertas acumulados ao longo dos anos, a cidade voltou a viver cenas de destruição após registrar o mês mais chuvoso da história, superando marcas históricas desde o início das medições oficiais em 1961.
Cidade figurava entre as mais vulneráveis do país
Levantamentos técnicos elaborados pelo Cemaden identificaram Juiz de Fora como uma das cidades brasileiras com maior número de pessoas vivendo em áreas de risco para deslizamentos e inundações. O município chegou a aparecer entre os dez com maior concentração populacional exposta a eventos extremos, sendo o caso mais crítico entre cidades do interior.
Estima-se que cerca de 129 mil moradores residam em regiões classificadas como vulneráveis. São áreas localizadas principalmente em encostas e proximidades de cursos d’água, onde a combinação entre relevo acidentado, drenagem urbana deficiente e ocupação irregular amplia o risco de tragédias em períodos de chuva intensa.
Além disso, relatórios técnicos já apontavam, desde 2017, risco elevado de deslizamentos em regiões específicas da cidade, como áreas próximas ao Morro do Cristo, no centro urbano.
Chuvas históricas agravaram cenário crítico
O episódio recente foi potencializado por um volume excepcional de chuva. Em fevereiro de 2026, o acumulado ultrapassou 740 milímetros, mais de quatro vezes a média histórica do mês e acima do recorde registrado em 1985.
Entre a noite do dia 23 e a madrugada do dia 24, foram registrados mais de 200 milímetros em poucas horas. O solo já estava saturado por precipitações acumuladas ao longo do mês, o que criou uma condição geológica extremamente instável. Quando o novo volume de chuva caiu, a terra não suportou.
Especialistas explicam que a combinação entre corredor de umidade vindo do Norte do país, frente fria estacionada no Sudeste e relevo montanhoso contribuiu para concentrar as instabilidades sobre a cidade. O resultado foi uma sequência de enxurradas, deslizamentos de terra e alagamentos.
Ocupação de encostas e desigualdade ampliam impacto
Juiz de Fora está situada em um vale cercado por morros e serras, com altitudes que variam de aproximadamente 470 metros a quase mil metros. Essa configuração favorece o confinamento de nuvens carregadas quando sistemas meteorológicos atuam sobre a região.
Ao longo das últimas décadas, a expansão urbana levou à ocupação de encostas com moradias de padrão estrutural variado. Enquanto áreas centrais receberam construções mais planejadas, regiões periféricas passaram a concentrar habitações com menor suporte técnico e infraestrutura limitada.
Grande parte das vítimas da tragédia vivia justamente nessas áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica. A ausência de drenagem adequada, contenção de encostas e fiscalização rigorosa do uso do solo ampliou o impacto dos temporais.
Recursos previstos e desafios na execução
Juiz de Fora foi incluída em programas federais de prevenção de desastres. Projetos voltados à contenção de encostas foram aprovados em diferentes etapas do Programa de Aceleração do Crescimento. Parte dos recursos foi aplicada ao longo dos anos, enquanto outros projetos ainda dependiam de tramitação e liberação financeira.
Ao mesmo tempo, dados públicos apontam variações nos investimentos estaduais destinados ao combate aos impactos das chuvas nos últimos anos. Especialistas defendem que a prevenção exige continuidade, planejamento urbano rigoroso e integração entre governo federal, estado e município.
Sem um plano permanente de redução de risco, a cidade permanece exposta à recorrência de eventos extremos.
Solo saturado mantém risco mesmo com redução da chuva
Embora a previsão indique diminuição do volume de chuva nos próximos dias, o estado de alerta continua. O solo permanece extremamente encharcado, o que mantém elevado o risco de novos deslizamentos, mesmo com precipitações isoladas ou de menor intensidade.
Meteorologistas alertam que a tendência de aumento da concentração e intensidade das chuvas no Sudeste, associada às mudanças climáticas, pode reduzir o intervalo entre eventos extremos. Isso significa que situações semelhantes podem ocorrer com maior frequência.
Gestão de risco precisa substituir gestão de desastre
Especialistas defendem a transição da lógica de resposta emergencial para a gestão preventiva do risco. Isso envolve mapeamento contínuo das áreas vulneráveis, instalação de sirenes e sistemas de alerta, educação ambiental, rotas de evacuação e revisão dos planos diretores municipais para impedir novas ocupações em regiões de alto perigo.
Também há debate sobre mudanças jurídicas que permitam a retirada obrigatória de moradores em áreas classificadas como risco iminente, medida que atualmente depende da concordância da população afetada.
A tragédia recente reacende a discussão sobre a necessidade de políticas públicas contínuas e integradas. Juiz de Fora estava no mapa de risco desde 2017. A pergunta que permanece é se o país está preparado para evitar que o próximo alerta se transforme novamente em desastre.



