A comunidade médica brasileira e internacional lamenta a perda da renomada cirurgiã Angelita Habr-Gama, falecida aos 92 anos em São Paulo. Sua trajetória, marcada por pioneirismo e inovações no tratamento do câncer de reto, deixou um legado indelével na coloproctologia. Angelita não apenas transformou a prática cirúrgica, mas também abriu portas para futuras gerações de mulheres na medicina, inspirando-as a superar barreiras em um campo tradicionalmente dominado por homens.
Angelita Habr-Gama foi uma figura central no desenvolvimento e implementação da abordagem “watch and wait” (observar e esperar) no tratamento do câncer de reto. Essa técnica, que revolucionou a forma como a doença era abordada, permitiu evitar cirurgias invasivas e preservar o órgão em pacientes selecionados que apresentavam resposta completa à quimiorradioterapia. Sua dedicação à pesquisa e à prática clínica resultou em mais de 200 artigos científicos e inúmeros prêmios, consolidando seu nome como referência mundial na área.
Nascida na Ilha de Marajó, Angelita trilhou um caminho de superação desde cedo. Enfrentou o ceticismo e o preconceito de uma época em que as mulheres eram minoria na medicina, persistindo em sua paixão pela cirurgia. Sua determinação a levou a se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de professora titular de uma especialidade cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP, um marco histórico para a medicina brasileira.
A Revolução “Watch and Wait” no Tratamento do Câncer de Reto
A abordagem “watch and wait“, defendida e aprimorada por Angelita Habr-Gama, representa uma mudança paradigmática no tratamento do câncer de reto. Tradicionalmente, a cirurgia era a principal opção terapêutica, muitas vezes resultando em procedimentos mutiladores com impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. No entanto, a pesquisa de Angelita e sua equipe demonstrou que, em casos selecionados, a quimiorradioterapia seguida de observação atenta poderia ser uma alternativa eficaz, evitando a necessidade de cirurgia.
Essa estratégia inovadora não apenas preserva o órgão, mas também reduz os riscos associados à cirurgia, como infecções, sangramentos e disfunções intestinais. A implementação do “watch and wait” exige uma avaliação criteriosa dos pacientes e um acompanhamento rigoroso para identificar sinais de recorrência da doença. A contribuição de Angelita Habr-Gama para a disseminação e aprimoramento dessa técnica transformou a vida de milhares de pacientes em todo o mundo, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida e preservando sua dignidade.
Um Legado de Inspiração e Resiliência
Além de suas contribuições científicas e clínicas, Angelita Habr-Gama personificou a resiliência e a perseverança. Sua trajetória, marcada por desafios e superações, serve de inspiração para jovens médicos e médicas que buscam trilhar um caminho de excelência na medicina. Angelita acreditava na importância da autoconfiança e da determinação para superar obstáculos, incentivando seus alunos e colegas a nunca desistirem de seus sonhos. Sua paixão pela medicina e seu compromisso com o bem-estar dos pacientes a tornaram uma figura admirada e respeitada em todo o mundo.
O legado de Angelita Habr-Gama transcende as fronteiras da medicina. Sua história de vida, marcada pela superação e pela dedicação ao próximo, é um exemplo de como a paixão, a persistência e o compromisso podem transformar o mundo. Angelita nos ensinou que o “não” não é uma resposta definitiva, e que a busca pelo conhecimento e pela inovação é fundamental para avançar na ciência e melhorar a vida das pessoas. Sua memória permanecerá viva nos corações daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la e aprender com ela, inspirando futuras gerações de médicos e médicas a seguir seus passos.



